terça-feira, 3 de julho de 2012

LUTERO E A NOVA TORRE DE BABEL


A torre de Babel (1563)
Pieter Bruegel, o Velho

Desde que Teodósio I tornou o cristianismo religião oficial do Estado, no final do século IV, o clero romano foi ganhando cada vez mais poder para controlar a interpretação da Bíblia. As chaves de Pedro permitiam acesso não apenas ao céu, mas também à mensagem divina contida no Livro Sagrado. A palavra final em questões de fé era dada pela cúpula da Igreja: Roma locuta, causa finita!

Lutero rompeu (rompeu?) com esse paradigma ao proclamar o livre exame das Escrituras. Mas livre exame, dirá um “bom” protestante, não é o mesmo que livre interpretação. O exame é livre, a interpretação não! O fruto pode ser tocado, jamais comido. Ora o que temos então? Houve alguma mudança? O poder de interpretar continuou nas mãos de quem sempre esteve: dos sacerdotes. Antes, sacerdotes católicos, depois sacerdotes protestantes.

Mas na prática ninguém se contentou em apenas manusear o fruto proibido. Zwínglio, Calvino, Thomas Müntzer, Thomas Cranmer e tantos outros, em sua ânsia de “tocar os céus”, não resistiram à tentação e abocanharam o suculento fruto. E que gosto tem? Para um, amora, para outro, framboesa, para outro, ameixa, para outro, morango. Cada qual, a seu modo, passou a construir altas torres doutrinárias sustentadas pela sensibilidade do seu paladar. Não demorou muito para que uns não entendessem mais a língua dos outros.  Guerras foram travadas, cidades foram saqueadas, reinos foram divididos e as opiniões sobre o sabor do fruto se multiplicaram: melancia, melão, cereja, uva, groselha, kiwi, limão, cajá, seriguela, jaca...

Em pleno século XXI alguns grupos insistem em dizer que o problema do cristianismo é que algumas pessoas interpretam a Bíblia de maneira equivocada. Alegam que a leitura da Bíblia é manca quando não busca apoio na teologia. Só assim, esbravejam, poderemos, de novo, falar o mesmo idioma, tal como ocorreu em Pentecostes. Ora, se a “teologia” já é (em tese) o resultado de uma leitura da Bíblia, como pode ser usada como parâmetro para sua interpretação? O argumento, como se vê, é circular.  

Fica a pergunta ao caro leitor: Ingenuidade ou astúcia?


Jones F. Mendonça