quinta-feira, 8 de março de 2012

ORFISMO, PLATONISMO E CALVINISMO: O CORPO COMO PRISÃO DA ALMA

"Orfeu", Antonio Canova,
1776 - Museu Correr, Veneza
No século VI a.C. os órficos disseminaram na Grécia a ideia do corpo como prisão da alma. O Fédon (séc. IV a.C.) está repleto de frases que revelam a influência que Platão recebeu do orfismo. No Crátilo, o filósofo grego claramente atribui aos órficos tal concepção:
De fato alguns falam que o corpo é túmulo (sema) da alma, como se este estivesse nele enterrada [...] parece-me que foram sobretudo os seguidores de Orfeu a estabelecer este nome [...] Tal cárcere, portanto, como diz o seu nome, é custódia (soma), da alma (Crátilo, 400c).
No século XV me aparece Calvino com o mesmo discurso:
E Cristo, encomendando o espírito ao Pai [Lc 23.46], como também Estêvão o seu a Cristo [At 7.59], não entendem outra coisa senão isto: quando a alma é liberada do cárcere da carne (grifo nosso), Deus lhe é o perpétuo guardião [...]. Além disso, a não ser que as almas liberadas dos cárceres dos corpos (grifo nosso) continuassem a existir, seria absurdo Cristo representar a alma de Lázaro a desfrutar de bem aventurança no seio de Abraão, e a alma do rico, por outro lado, destinada a horrendos tormentos (Livro I, VI, 2).
No livro III Calvino fala a respeito do arrependimento como pré-requisito para o perdão dos pecados. A ideia do corpo como prisão da alma reaparece:
Portanto, enquanto habitamos no cárcere de nosso corpo, temos de lutar continuamente com as imperfeições de nossa natureza corrupta; na verdade, com nossa alma natural. Platão [citando o Fédon] diz algumas vezes que a vida do filósofo é a meditação da morte. Com verdade maior, podemos dizer que a vida do cristão é um contínuo esforço e exercício para a mortificação da carne, até que, morta inteiramente, o Espírito de Deus obtenha em nós o reino (Livro III, III, 20).
Por fim o "asceta francês" fala da morte como meio para se alcançar a perfeita liberdade:  
Se ser libertado do corpo é ser lançado à perfeita liberdade, que outra coisa é o corpo senão um cárcere (Livro III, IX, 4)?
Um Calvino 100% bíblico... sei...


Jones F. Mendonça