terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A EXEGESE JUDAICA ONTEM E HOJE

De acordo com a tradição judaica, a Torá não foi dada na Terra Santa, mas no deserto. Tal decisão divina levanta uma pergunta: “por que Deus quis assim?”. Como é bem típico na exegese judaica, textos isolados são usados para responder perguntas. Não há qualquer preocupação com o contexto.

Um belo exemplo foi publicado no jornal Arutz Sheva (10-02-12). Escrito pelo rabino HaRav Avigdor Milles, o texto apresenta pelo menos três razões possíveis para que a Torá fosse entregue no deserto:
1) A terra era para ser dada como recompensa e incentivo para o estudo e observância da Torá, por isso sua aceitação precedeu a terra: “E deu-lhes as terras das nações; e herdaram o trabalho dos povos; para que guardassem os seus preceitos, e observassem as suas leis. Louvai ao SENHOR” (Tehilim 105,45).

2) A entrega da Torá no deserto demonstra que ela é independente da terra. Mesmo quando a nação estava no exílio, “no deserto das nações” (Yecheskeel 20,35), o estudo e cumprimento da Torá nunca deveria ser negligenciado.

3) “A fim de não despertar a inveja entre as tribos” (Mechilta, Yithro 20), o deserto foi escolhido. Assim, a Torá foi igualmente dada a cada israelita, e nenhuma tribo poderia se sentir menos obrigada, o que teria ocorrido caso a Torá tivesse sido dada em Canaã, no território de uma das tribos.
Nos Evangelhos, Mateus usa e abusa desse tipo de exegese, citando textos do Antigo Testamento completamente fora de contexto. Eis um exemplo clássico:
E vindo ali, habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno (Mt 2,23).
Você não vai encontrar tal citação em qualquer um dos profetas. É possível que Mateus tenha buscado semelhanças entre a palavra Nazaré e netzer (renovo). E como o messias é apresentado como um “renovo” por profetas como Isaías, Jeremias e Zacarias, pronto, o coelho saiu da cartola.

Coisa da exegese judaica...


Jones F. Mendonça