quarta-feira, 18 de maio de 2011

APONTAMENTOS DE HERMENÊUTICA: HELENISMO E JUDAÍSMO

Desde o judaísmo pré-cristão, vários métodos de interpretação foram empregados na tentativa de extrair das Escrituras sua mensagem. Abaixo um breve resumo da história da interpretação bíblica:

1. Gregos (séc. VI a.C.): Na Grécia Antiga a alegoria (de allo, um outro; e agoreuen, dizer) foi empregada como método interpretativo pelos filósofos gregos visando tornar aceitáveis os relatos mítico-religiosos. O método alegórico pressupõe a existência de um sentido velado no texto. Com este artifício era possível negar que os deuses tivessem forma e sentimentos humanos como apresentados nos mitos e ao mesmo tempo aceitar o conteúdo de sua mensagem.

2. Judeus: Fílon (20 a.C. – 45 d.C.), rabino de família sacerdotal judaica, empregou a alegoria na tentativa de adequar as Escrituras Sagradas dos judeus ao pensamento filosófico. Falando dos poços bíblicos, Fílon deixa transparecer a influência que recebeu da filosofia grega:
“O poço é o símbolo do conhecimento. Porque a natureza do conhecimento não se situa na superfície, mas é profunda. Ela não eclode ao meio-dia, mas ama ocultar-se no segredo, e não é facilmente, mas com muita dificuldade que é encontrada”[1].
Sobre o sentido oculto que estaria presente no texto bíblico Fílon declara:
“O que é dito [na Bíblia] não se detém nos limites da explicação literal e evidente, mas parece dar a entender uma realidade que é muito mais difícil de conhecer pela multidão, realidade que reconhecem os que fazem passar o inteligível antes do sensível e são capazes de ver”[2].
A falta de interesse pelo sentido objetivo do texto é bem nítido numa discussão rabínica a respeito do porque o livro do Gênesis iniciar com o bet, segunda letra do alfabeto hebraico, e não com o alef, letra que encabeça o alfabeto:
“A letra beth é a segunda letra do alfabeto e também simboliza o número dois. O que nos ensina que para criar o texto bíblico foram necessárias pelo menos duas pessoas: Deus e o seu parceiro, o ser humano”[3].
“O beth é a letra de bênção (berakhá) e o aleph a da maldição (arirá)”[4].
Notas:
[1]  FÍLON, De somniis, I, § 6
[2] HADOT, Pierre. O véu de Isis: Ensaio sobre a história da ideia de natureza, p.69.
[3] Phoînix. Laboratório de História Antiga/UFRJ. 2007, p. 70.
[4] Fiz uma tradução livre. No original: “why with a bet? Because bet connotes blessing (berakhah). And why not with an aleph? Because aleph connotes cursing (arirah)”. POSNER, Raphael (Edit.). The creation according to the Midrash Rabbah. 2002, p. 47.

Jones F. Mendonça