quarta-feira, 26 de maio de 2010

JOSÉ DATRINO, O PROFETA DA GENTILEZA E DA TERNURA

Por Jones Mendonça

Cabelos, barba e túnicas brancos, bordão e placas coloridas nas mãos, assim peregrinava pelo Brasil José Datrino[1] (1917-1996). Era um José como tantos outros, tinha família, emprego e esperança por dias melhores. Mas como que seduzido pelo Espírito Divino e condenado ao escárnio[2] recebeu a espinhosa missão de proclamar o amor, a gentileza e a fraternidade aos homens. Da suas boca saía uma mensagem cheia de ternura e graça: Gentileza gera gentileza!. O impacto de suas palavra fizeram com que ficasse conhecido como “Profeta Gentileza”.

O fim de sua vida como homem comum se deu no dia 17 de dezembro de 1966, quando ocorreu um grande incêndio num circo norte-americano em Niterói. Tal infortúnio abalou profundamente José Datrino, que entre o meio dia e uma hora da tarde, enquanto entregava mercadorias com seu caminhão, recebeu o chamado divino. Às vésperas do Natal, comprou duas pipas de vinho de cem litros, foi à Niterói, e lá começou a distribuí-lo em copos de papel: “quem quiser tomar vinho não precisa pagar nada, é só pedir por gentileza... é só dizer agradecido”. O profeta tinha uma linguagem própria. Ele dizia: “Não diga obrigado, diga agradecido”, e “não diga por favor, diga por gentileza”.

Mas o comportamento inusitado do profeta não parou por aí. Durante quatro anos instalou-se no local do incêndio, cercou-o e transformou-o num jardim cheio de flores. Na entrada vinha escrito: “Bem-vindo ao Paraíso do Gentileza. Entre, não fume, não diga palavras obscenas, porque tornou-se agora um campo santo”. Como todo profeta que se preze, Gentileza também idealizou seu paraíso terrestre, arquétipo do paraíso celeste.

Em 1980 uma nova marca do profeta surgiu.  Inscreveu suas frases nas 55 pilastras do viaduto do Caju, no Rio de Janeiro. Ele gostava de culpar as desgraças do mundo pelo que chamava de “capeta-capital”.  Leonardo Guelman, autor do livro “Univvverrsso Gentileza”, diz que “é no capeta-capital, neologismo criado por ele [José Datrino], que se encontra ‘a origem dos  males’ e a verdadeira oposição à gentileza. O individualismo, a lógica da competição e a ética de ‘levar vantagem em tudo’ tornam-se regras desse contexto”[3]

O Escritor, jornalista e professor de literatura brasileira, Edmilson Caminha entrevistou-o em 98 no estúdio da Rádio Educativa do Piauí. Quando perguntado a respeito de sua maneira insólita de escrever, dobrando letras e  enxertando números, respondeu: “Sou eu que não sei escrever ou as pessoas que não sabem ler?”[4]. Leonardo Boff, teólogo brasileiro e um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação, explica o motivo da repetição de letras: “Essa simbologia arquetípica aparece claramente nas mensagens do profeta Gentileza. O universo, por exemplo, vem escrito assim ‘Univvverrsso’ para significar a atuação as três divinas pessoas (vvv) em particular o Filho (rr) e o Espírito Santo (ss)”[5].  Outra curiosidade do Profeta Gentileza é que quando se referia ao amor divino, grafava “amorrr”, mas o amor mundano, ligado às coisas materiais, grafava com um r só.

Um homem com comportamentos tão bizarros certamente despertava nas pessoas os mais diversos sentimentos. Para alguns um louco, para outros um verdadeiro profeta. Aos que o consideravam louco respondia: “maluco para te amar, louco para te salvar”. Ou: “seja maluco como eu, mas seja maluco beleza, da natureza, das coisas divinas”. O ministério profético de Gentileza terminou no dia 28 de maio de 1996, aos 79 anos de idade. Sua vida expirou, mas sua mensagem continua nos falando através das coloridas e curiosas mensagens estampadas nos cinzentos viadutos da cidade do Rio de Janeiro.

Referências bibliográficas:
VIANNA, Beto (ed.). Biologia da libertação: ciência, diversidade e responsabilidade. Belo Horizonte: Mazza edições, 2008.
CAMINHA, Edmílson. Lutar com palavras. Brasília: Thesaurus, 2001, p. 293.
BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do ser humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

Imagem:
Capa do livro “Univvverrsso Gentileza”
Leonardo Guelman
Ed. Mundo das Idéias
336 pags. Pb e cor
Notas: 
[1] Leonardo Boff grafa seu nome como José da Trino.
[2] O mesmo ocorreu com Jeremias, o profeta bíblico: “Seduziste-me, ó Senhor, e deixei-me seduzir; mais forte foste do que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio o dia todo; cada um deles zomba de mim” (Jr 20,7).
[3] Disponível em:<http://www.riocomgentileza.com.br/sinopse.html>. Acesso em 26 de maio de 2010.
[4] CAMINHA, Edmílson. Lutar com palavras. Brasília: Thesaurus, 2001, p. 293.
[5] BOFF, Leonardo. Saber cuidar. 1999, p. 182.