terça-feira, 21 de julho de 2009

UM MITO DA CRIAÇÃO DOS ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS

Por Jones Mendonça

Conta uma lenda que o “Velho Homem”, divindade criadora na religião dos índios norte-americanos, decidiu que faria uma mulher e uma criança. Após fazê-los do barro, os dois foram se modificando com o passar dos dias, até que no quarto dia se levantaram e andaram até o rio. Lá o Velho Homem se apresentou aos dois.

Após saber que iria viver para sempre, a mulher, indignada, se dirige ao Criador. Deixarei que o leitor aprecie o mito na forma como foi transcrito por Joseph Campbell:

Enquanto estavam lá à beira do rio, a mulher perguntou ao Velho Homem “Como é isso? Vamos viver sempre, não haverá fim?”. E ele respondeu: “Jamais pensei nisso. Temos que decidir. Pegarei este pedaço seco de estrume de búfalo e o jogarei no rio. Se ele flutuar, as pessoas morrerão, mas em quatro dias voltarão a viver novamente; elas morrerão apenas por quatro dias. Mas se ele afundar, haverá um fim para as pessoas”. Ele lançou o pedaço de estrume no rio e o estrume ficou boiando. A mulher pegou uma pedra e disse: “Não, não deve ser assim. Vou atirar esta pedra na água e se ela boiar, viveremos para sempre, mas se afundar, as pessoas terão que morrer para que elas possam ter pena umas das outras e umas lamentarem as outras”. A mulher atirou a pedra na água e a pedra afundou. “Muito bem!”, disse o Velho Homem: “Você escolheu! E assim será!” [1].

Na continuação da história o Velho Homem ensina os primeiros humanos a escolher as raízes boas para comer, como cozinhar a carne dos animais e até mesmo o segredo para manter o vigor físico, reservando um tempo para dormir.

O mais curioso nessa história é que o Criador (o Velho Homem) é ao mesmo tempo o Trapaceiro. Após deixar a terra, se dirigiu para debaixo da terra, tomando conta do mais inferior dos quatro mundos. O Trapaceiro é um insensato, uma figura ambígua, devasso, cruel, princípio da desordem, mas também o portador da cultura. No relato bíblico da criação, ao contrário, Satã é uma personagem distinta de Yahweh.

Apesar das diferenças nítidas, como a confusão entre Deus/Diabo, há paralelos interessantes nessa história. Como no relato bíblico da criação é a mulher que toma a iniciativa de escolher entre viver eternamente e morrer, já que é ela a primeira a comer o fruto proibido. Também como no relato bíblico homem e mulher são criados a partir do barro.

Há entre os índios Kadiwéu, no Pantanal mato-grossense, um mito que carrega semelhanças com a história dos índios americanos e também com o relato hebraico-cristão da criação. No mito Kadiwéu, o Criador, chamado de Go-noêno-hôdi, tinha a intenção de criar um “mundo bom, uma vida fácil para os homens e assim fez” [2]. Mas Caracará não se agradou dessa ordem e o convenceu de que isso não estava certo, pois desse modo não poderia julgar qual a mulher trabalhadeira e a mulher preguiçosa, nem o bom caçador do mau caçador. Convencido pelo Caracará, Go-noêno-hôdi transformou aquela ordem idílica na atual. Caracará também convenceu Go-noêno-hôdi de que o homem não poderia viver para sempre, afinal não haveria no futuro espaço para tanta gente.

Fico fascinado com essas semelhanças. Como tenho uma coleção de mitos da criação de diversas partes do mundo que carregam semelhanças incríveis entre si, pretendo publicá-los aqui o blog aos poucos. Explicação para isso... Ah, existem muitas. Deixe a sua sugestão.

Notas:

[1] CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus, 1992, p. 224.

[2] RIBEIRO, Darcy. Os kadiweu, ensaios etnológicos sobre o saber, o azar e a beleza, 1980, p. 56.