quarta-feira, 8 de julho de 2009

O CALVINISMO MODERADO DE MILLARD ERICKSON

ERICKSON, Millard. Introdução à Teologia Sistemática. J. Trad. Luci Yamakami. São Paulo: Ed. Vida Nova, 1997, p. 143-156.


Resenha

Por Jones Mendonça

No capítulo 12 da sua teologia sistemática, Millard Erickson propõe o que ele chama de “modelo calvinista moderado” (p. 150). Inicialmente o autor busca definir a terminologia que utilizará na obra, a fim de que sua argumentação possa ser mais bem compreendida. Ele explica que fará uso da expressão “preordenar” com um sentido mais amplo que “predestinar”. A primeira fazendo “referência às decisões divinas a respeito de quaisquer questões no âmbito da história cósmica” (p. 144) e a segunda ficando “reservada para a questão da salvação ou condenação eterna” (p. 144). O termo “predestinação” ganha ainda uma explicação mais detalhada no texto de Millard Erickson. Ele explica que alguns indivíduos são predestinados para a salvação (eleitos – predestinação positiva) e outros para a condenação (reprovados – predestinação negativa). De forma bem clara, o que ele quer dizer é que Deus é quem elege os indivíduos para a salvação. Os não eleitos serão condenados. A eleição seria um ato exclusivo de Deus, sem a participação do homem. Seria ainda um ato de misericórdia, já que o pecado teria tornado todos os indivíduos condenáveis.

O próximo passo do autor é buscar fundamentos bíblicos que atestem a atuação divina na história, planejando e ordenando os eventos. Essa busca é feita inicialmente no Antigo Testamento. Millard defende que para “os autores do Antigo Testamento, era praticamente inconcebível que alguma coisa pudesse acontecer à parte da vontade e da obra de Deus” (p. 144). Ele cita inúmeros versículos que descreveriam um Deus que determina eventos como a chuva, catástrofes, guerras e até mesmo coisas triviais como a construção de uma cisterna (Is 22.1). Seus decretos seriam, portanto, imutáveis. Deus não poderia desse modo voltar atrás. O autor veterotestamentário seria alguém que enxerga Deus como aquele que “dirige a história [...] com [...] intenção de ter comunhão com o seu povo” (p.145). Mas o leitor que não se iluda, tal comunhão seria apenas com os eleitos. Caso perguntássemos o critério dessa escolha a resposta seria: “mistérios de Deus...”. Calvino fazia muito gosto desse recurso. O autor segue a mesma linha.

Eventos do Novo Testamento como a traição de Judas e o cumprimento das profecias acerca da vida Jesus são utilizados como prova da atuação de Deus na história, conduzindo todos os eventos de acordo com seus propósitos. Os destinos das nações e dos homens não poderiam de modo algum escapar aos seus desígnios. Todo o plano de Deus (o termo decreto é mais adequado, já que é impossível que não se concretize) teria sido criado na eternidade e posto em prática a partir da criação.

Até aqui a argumentação de Millard Erickson segue de forma coerente, ainda que muitos possam não concordar com seu modo de enxergar a questão. Consideremos a interpretação do autor como válida. Deus realmente determina a chuva, as catástrofes e a construção de uma cisterna. Quando a Bíblia fala que Deus se arrependeu está fazendo uso de um antropomorfismo. Foi Ele também que decretou a traição de Judas e a condenação de milhares de pessoas ao inferno. É preciso considerar ainda que até o pecado de Adão foi um decreto divino (a menos que se admita que Adão não estava debaixo da soberania de Deus). 

O primeiro problema na argumentação de Millard Erickson começa quando insiste na possibilidade de conciliar predestinação com liberdade humana. Por exemplo, ele diz que “a função de Deus é decidir que certas coisas ocorrerão em nossa vida, não dar ordens para que atuemos de determinada forma. O plano de Deus não nos força a agir de maneira específica, mas assegura que vamos agir livremente daquela forma” (p. 148). Seria isso possível?

Imaginemos uma cena onde estão num buraco cheio de lama dez indivíduos. A cada instante o lamaçal arrasta para o fundo as pobres almas que não têm onde se apoiar. Eis que surge um bom homem (com fins didáticos ele será chamado de Théo), que mesmo tendo a possibilidade de salvar a todos, escolhe alguns para livrar da morte. Não sabemos o que levou Théo a escolher apenas alguns. O que sabemos é que os que afundaram na lama não tinham força suficiente para saírem sozinhos. Comparando o episódio com a citação de Millard Erickson, vemos que assim como Deus, Théo decidiu como as coisas ocorreriam, mas não forçou ninguém a morrer e nem a se salvar. Os não escolhidos eram livres para qualquer coisa, menos para se salvarem. Assim, o comportamento de Théo seria muito semelhante ao de Pilatos em relação à condenação de Cristo, mas com uma diferença crucial: na concepção calvinista Pilatos e a multidão seriam duas facetas de uma mesma força determinante, já que Deus não possui opositores.

O segundo problema na argumentação do autor diz respeito à responsabilidade pelo pecado. Segundo Millard Erickson o ser humano natural não teria a vontade necessária para evitar o pecado. Apenas a graça divina seria capaz de reverter essa inclinação. A pergunta que surge é: de onde vem a inclinação para o mal. A resposta do autor é: “Deus”. Millard Erickson sustenta que todas as nossas características biológicas e o ambiente em que nascemos são estabelecidas por Deus, assim, somos produtos não do meio e da nossa hereditariedade, mas de um Deus que determina o meio e as nossas características biológicas. No fim das contas seria o mesmo que dizer que Deus determina nossas ações. Ora, se Deus determina nossas ações como pode nos responsabilizar por elas?

Gosto da resposta de Paulo freire para o problema do paradoxo envolvendo o livre arbítrio e a predestinação. Para ele, dizer que somos livres não significa

negar os condicionamentos genéticos, culturas, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos condicionados, mas não determinados; que o condicionamento é a determinação de que o objeto, virando sujeito, se torna consciente. Significa re-conhecer que a história é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro é problemático e não inexorável [1].

Einstein se perturbou diante das implicações da mecânica quântica. Esse novo campo de pesquisa deu início ao desmoronamento do universo mecanicista newtoniano. Descobertas feitas por físicos como Max Plank e Heisenberg começavam a mostrar que não existem leis tão rígidas no universo. O elemento aleatório deixou muitos físicos desconcertados. Stephen Hawking nos diz que “Einstein ficou horrorizado com esse elemento aleatório, imprevisível nas leis básicas, e nunca aceitou plenamente a mecânica quântica. Seus sentimentos foram expressos no famoso dito: ‘Deus não joga dados’”[2]. Hawking, convicto do erro da frase de Einstein e bem ciente aleatoriedade de alguns elementos do universo, disse que “todos os indícios, porém, sugerem que Deus é um jogador inveterado, que lança o dado em todas as ocasiões possíveis”.

Diante da antiga pergunta: “o homem é produto do meio ou da hereditariedade?”, um calvinista diria que é produto de Deus, já que a hereditariedade e o meio são determinados por Ele. Como Paulo Freire, entendo que muitos elementos influenciam o homem, tais como fatores genéticos e ambientais, mas jamais determinam seu comportamento. Toda essa discussão nos faz retornar ao problema teológico: “e Deus, onde entra nessa história?”. Se Deus “joga dados” como fica sua soberania? Se Deus “joga dados” o universo deve ser concebido como um caos sem sentido como supôs Nietzsche?

Creio sinceramente que Deus age na história. Creio que se preocupa com o homem e que deseja que tenhamos comunhão verdadeira com Ele. Mas não creio que Deus determine nossas escolhas. Estamos no mundo e somos influenciados por inúmeros fatores, tais como a maneira pela qual fomos criados, a cultura na qual estamos inseridos, nossas características biológicas e até mesmo pelos indivíduos com os quais nos relacionamos. Neste emaranhado de relações está Deus. Independentemente dos diversos fatores acima listados, Ele age. Independentemente da cor, sexo, cultura, características genéticas, Deus está sempre sinalizando o horizonte. Mas não um horizonte extático, inexorável. Mas um horizonte de possibilidades.

Mas e a pré-ciência, como fica. Se Deus é onisciente e sabe antecipadamente todos os eventos que irão ocorrer, isso não implica numa predestinação? Bem, vejo que é nesse momento, e exclusivamente nesse momento, que Deus esconde seu rosto.


Referências bibliográficas:

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos, 2000, p. 51.
[2]HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz, 2001, p.26.
[3] Idem, Buracos negros, universos bebês e outros ensaios, 1995, p. 59.