quarta-feira, 8 de julho de 2009

DIETRICH BONHOEFFER E A RESPONSABILIDADE CRISTÃ

Por Jones Mendonça

Pai meu, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade” (Mt 26.42). Com estas palavras Jesus se dirige ao Pai. Seu ato de obediência a Deus representava ao mesmo tempo um ato de desobediência aos homens e na condição de homem, sofria com tal a dor que o desprezo produz. Jesus optou por obedecer a Deus, mas como nos diz sabiamente Paulo Freire: “decidir é romper e, para isso, preciso correr o risco” [1]. Sua decisão provocou o rompimento com a religião dos pais, com os discípulos e com sua existência terrena. Nos seus últimos momentos, Jesus passou por profunda tristeza e angústia. Sua alma estava triste até a morte. Enquanto isso os discípulos dormiam. Ainda assim prosseguiu na sua ação livre e responsável: Só; à margem da desonra (nú e ridicularizado pelos soldados) e sofrendo na carne e no Espírito. Esse é o Cristo, loucura para os gentios, escândalo para os judeus. Paradoxalmente, seu rompimento com o mundo tornava possível sua redenção.

Dietrich Bonhoeffer sentiu na própria carne o que significa ser um imitador de Cristo. Ernesto F. Bernhoeft escreveu, em agosto de 1961, no prefácio de uma edição de “Resistência e submissão” publicado pela Paz e Terra, o seguinte:

Da cela de um frio presídio, sob constante ameaça de tortura e morte, às vezes em tiras de papel de embrulho, em pequenos bilhetes metidos entre as roupas, saíram as cartas, os recados, estudos e palavras repletas de fé para o mundo afora. Orações de um preso alegre, mensagens de um encarcerado propositalmente otimista, proclamações de um conspirador inabalável na sua fé. Bilhetes que sacudiram as paredes dos templos, palavras que fariam tremer os alicerces de um regime, idéias que ultrapassariam os anos, as décadas [2].

No dia 04 de outubro de 1945, Bonhoeffer partia para sua cruz. Ele foi detido pela força, mas não suas palavras. Como Cristo, ali estava por livre escolha, já que poderia ter partido para o exílio como muitos outros fizeram. Também estava só como o nazareno, já que se encontrava privado do convívio da sua família e de seus amigos íntimos. À margem da desonra, já que era considerado um traidor de sua pátria, e finalmente sofrendo na carne e no espírito, já que a vida no cárcere lhe privava das suas maiores alegrias, produzindo em seu espírito a mais agonizante dor.

Bonhoeffer, a exemplo de Cristo, tinha plena consciência das conseqüências de seus atos. Se sua morte fosse causada apenas pela recusa em negar sua fé de forma verbal, como fizeram muitos mártires cristãos dos primeiros séculos, já teria sido um ato nobre. Mas por se recusar a negá-la pela coragem de se opor a um regime opressor, e, portanto, anticristão, sua atitude foi ainda mais digna de honra. Temos aí um verdadeiro imitador de Cristo.

Referências bibliográficas:

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia, 2006, p. 103.

[2] BONHOEFFER, Dietrich. Resistência e submissão, p. 6.