segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

JUNG VERSUS FREUD EM DOIS PONTOS

No imaginário popular, as diferenças metodológicas entre Freud e Jung geralmente são vistas pelo prisma da religião: Freud – visão negativa; Jung – visão positiva. Mas é muito mais que isso. No que diz respeito aos sonhos, por exemplo, há diferenças significativas. Acompanhe:

1. Embora não conhecesse o alfabeto cirílico, um homem começou a divagar enquanto observava anúncios em estações de trem da Rússia. A experiência trouxe-lhe à mente antigas lembranças, incluindo assuntos bem incômodos há muito tempo sepultados na memória. Após ouvir essa experiência relatada por seu paciente, Jung começou a perceber que os complexos podem ser descobertos não apenas pelos sonhos, mas também, por exemplo, a partir de meditações sobre uma bola de cristal, moinhos de orações, um quadro moderno ou até mesmo de uma conversa ocasional a respeito uma banalidade qualquer. 

2. Freud buscava os temas emocionais reprimidos (complexos) nos sonhos tal como na experiência descrita acima. Ele não via o sonho como tendo uma mensagem específica, mas apenas como uma espécie de “alfabeto cirílico” capaz de despertar memórias reprimidas. Jung passou a discordar desse ponto. Ele achava que os sonhos têm uma linguagem própria e que a livre associação de Freud por vezes é ineficiente para tingir os complexos. Preferiu concentrar-se nas associações com o próprio sonho, convencido de que ele expressa o que de específico o inconsciente está tentando dizer. A partir dessa descoberta Jung foi abandonando a livre associação de Freud até concluir: “só o material que é parte clara e visível de um sonho pode ser utilizado para a sua in­terpretação”.



Jones F. Mendonça