sexta-feira, 2 de outubro de 2015

JAVÉ E OS DRAGÕES

Quando um fiel inserido no ambiente judaico cristão quer ler o relato de como mundo se formou certamente abrirá sua Bíblia nos primeiros capítulos do Gênesis. Em Gn 1,1-2,4a lerá o relato que destaca a criação do universo (cosmogonia) e em Gn 2,4b-25 outro relato destacando a criação do homem e da mulher (antropogonia). Mas estes não são os únicos relatos da criação presentes na Bíblia hebraica.

Salmos, Isaías e Jó contém resquícios de relatos da criação conhecidos pelos hebreus antes da redação do Gênesis, oriundos do ambiente cananeu. Vejamos: 
Sl 74,12-17 Tu porém, ó Elohim, [...] 13 dividiste o mar com teu poder, quebraste as cabeças dos monstros das águas; 14 tu esmagaste as cabeças do Leviatã dando-o como alimento às feras selvagens; 15 Tu abriste fontes e torrentes, tu fizeste secar rios inesgotáveis; 16 o dia te pertence, e a noite é tua, tu firmaste a luz e o sol, 17 tu puseste todos os limites da terra, tu formaste o verão e o inverno.
Textos descobertos no século XX em Ugarit, Síria, revelaram que este texto do Salmo é um resumo de um mito da criação cananeu que descreve Baal, deus da tempestade, derrotando Yam, o deus do mar e seus ajudantes.

Em Is 27,1 e Jó 26,12-13 a luta entre o deus de Israel e os monstros mitológicos (“Leviatan, serpente escorregadia”; “Leviatan, serpente tortuosa”, o “Monstro que habita o mar”, “Rahav” e “Yam”) inquietam leitores desavisados:

Is 27,1 Naquele dia, punirá Javé, com a sua espada dura, grande e forte, a Leviatã, serpente escorregadia (Leviatan nahash bariah), a Leviatã, serpente tortuosa (Leviatan nahash aqalaton), e matará o monstro que habita o mar (hataniyn ’asher bayam). 
Jó  26,12-13 Com seu poder aquietou o Mar (Yam), com sua destreza aniquilou Rahav. 13 O seu sopro clareou os Céus e sua mão traspassou a Serpente escorregadia (nahash bariah).
Descrições semelhantes podem ser encontradas nos mitos ugaríticos: 
Quando você matou Litan, a serpente fugitiva, aniquilou a serpente sinuosa, o potentado de sete cabeças (SMITH, Mark S. The origins of monotheism, p. 33).
O relato de Gênesis, ao invés de se inspirar no mito cananeu, busca na Mesopotâmia elementos para a elaboração de seu relato da criação. O redator israelita atua como uma espécie de C. S Lewis, usando mitologia estrangeira para incutir teologia israelita na mente do povo (C. S. Lewis usou mitologia nórdica em seu “As crônicas de Nárnia” para incutir teologia cristã).

A luta entre divindades e monstros não se restringe aos cananeus (Baal versus serpentes marinhas) ou babilônios (Marduk versus Tiamat). Na mitologia grega, Zeus mata Typhon; na mitologia nórdica Thor mata Jörmungandr; na mitologia hindu, Indra mata Vrtra; na mitologia eslava, Perun mata Veles; e na mitologia hitita; Tarhunt mata Illuyanka.

Até hoje a luta entre heróis e monstros poderosos que ameaçam a ordem fazem sucesso hipnotizando multidões. O tema é muito bem explorado, por exemplo, nas trilogias de J. R. R. Tolkien (“O senhor dos anéis” e “Hobbit”). Quem não se lembra da batalha travada entre o mago Gandalf e o demônio Balrog na ponte Khazad dûn? Ou do confronto entre Bard e o dragão Smaug, morto com uma flecha negra após um certeiro disparo feito de uma torre prestes a ruir?



Jones F. Mendonça