segunda-feira, 26 de outubro de 2015

ENEM SOB CENSURA

Ano de 2016. Os responsáveis pela elaboração das provas do ENEM encontram-se diante de um grave dilema. Sentem-se desconfortáveis em inserir citações de Karl Marx nas provas após os protestos nas redes sociais. Tudo porque o filósofo teria traído sua esposa com a empregada, vivido às custas de um burguês e perdido três de seus filhos para o suicídio. Deram-se conta de que boa parte do povo não consegue distinguir a vida acadêmica da vida pessoal. Uma pena.

Depois dos protestos de Bolsonaro e Feliciano, a filósofa francesa Simone de Beauvoir também acabou banida. Em sua ficha constam muitas imoralidades, tal como o triângulo amoroso com Sartre e Olga Kosakiewicz. Simone também é acusada de delitos graves como roer unhas, faltar às missas e, o pior: só tomar banho aos sábados. Um absurdo!

Após pequeno burburinho alguém sugeriu o nome de Martinho Lutero, mas foi imediatamente advertido de que - apesar de sua posição firme (e até “virtuosamente violenta”) contra os camponeses insurgentes de 1524 – o reformador foi um rebelde! Sua ousadia ao desafiar o papa, maior autoridade religiosa da época, pode ser um estímulo à indisciplina dos jovens. Há ainda aquele texto de 1543 incentivando a queima de sinagogas... “Um perigo esse Lutero!”, gritariam os fundamentalistas milenaristas pró-Israel.

Um jovem professor negro anunciou com entusiasmo o nome de Luther King. A indicação, infelizmente, logo perdeu força. Gravações feitas pelo FBI – explicou um jovem doutor - revelaram que o líder batista teve amantes. Além do mais, como Lutero, pode ser visto como má influência para a juventude, pois sua trajetória é marcada pela rebelião contra as leis do Estado.

Um professor de cabelos grisalhos propôs um personagem que teria uma ficha totalmente limpa: Jesus Cristo. Mas o nome também trazia problemas. Sua mãe casou-se grávida (Jesus não se enquadra no padrão familiar proposto pela bancada evangélica, já que teve pai ilegítimo), andava na companhia de gente considerada a “escória da sociedade” (como os sírios e haitianos de Bolsonaro) e foi definido como subversivo pelas autoridades religiosas (“subversivo” não é adjetivo adequado às pessoas de boa família). Para piorar, é bem conhecida sua condenação num tribunal presidido por Pôncio Pilatos, autoridade divinamente constituída.

O ENEM 2016 acabou cancelado por falta de santos.


Jones F. Mendonça