quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O PAPA, A BÍBLIA E AS CONFISSÕES DOUTRINÁRIAS

Discussão entre um católico e um protestante sobre o cânon bíblico. Cada qual reúne seus argumentos. O católico apela para os concílios ecumênicos. O protestante para os reformadores.  Na ótica dos católicos os concílios ecumênicos expressam a vontade de Deus na terra (foi num desses concílios que Jan Hus foi declarado herege e condenado à fogueira – Constança, 1415). Os protestantes, que ingenuamente criticam a tradição dos católicos, apóiam-se também na tradição para sustentar a canonicidade dos seus livros sagrados (e pensar que Lutero rejeitou, ou pelo menos deu menor valor canônico, aos livros de Hebreus, Tiago e Apocalipse).

Com o Antigo Testamento a coisa também não é simples. Normalmente se diz que o concílio de Jâmnia, em 90 d.C., definiu os livros considerados canônicos pelos judeus. Ficaram de fora os chamados deuterocanônicos (Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e Macabeus). Mas espere, esse é o cânon dos judeus da Palestina. Os judeus de Alexandria aceitaram tais livros como Palavra de Deus (cânon alexandrino). E o que dizer do cânon dos etíopes? Para eles até Enoque, inserido em suas Bíblias após o livro de Jó, é inspirado! E pensar que ainda existe o cânon samaritano...

A ideia de que existe um cânon universal possui um fundamento frágil. O que existe é o cânon desta ou daquela comunidade. Ou ainda, o “meu cânon”. Aliás, na prática é o que todas as denominações fazem. A leitura é sempre seletiva. Determinados textos ou são deixados de lado ou são interpretados de acordo com a vontade do líder. Neste caso temos cânons em miniatura e papas em miniatura, cada qual com sua infalibilidade ex-catedra. Complicado, não acha?

Por expor à nudez esse problema, um “protestante de reta doutrina”, diria que sou um “liberal”, “modernista”, e outros adjetivos que eles adoram. Um dos princípios dos reformadores: “igreja reformada sempre se reformando” (Ecclesia Reformada Semper reformanda), não diz respeito a uma periódica e constante reforma doutrinária, baseada em novas interpretações das Escrituras surgidas a partir de estudos recentes, mas uma reavaliação à luz das suas confissões para evitar os chamados “equívocos de interpretação”.   O documento (confissão reformada) torna-se o novo Papa, exceto se tal confissão for considerada apenas como uma referência, um horizonte. Mas há cristãos dispostos a isso?


Jones F. Mendonça