terça-feira, 2 de agosto de 2011

SEU PEDROSA, DONA ZICA, O CÂNCER E O EXÚ

Albrecht Dürer - A descida do Espírito
Santo (1511), British Museum
Seu Pedrosa padece de um câncer. Ele está definhando. Sente dores terríveis. Mas o médico insiste: “é doença é da tua cabeça, não há o que fazer”. O paciente pensa: “se é psicológico, por que dói, porque meu corpo incha, por que a morte me convida à cova?”. O quadro do Seu Pedrosa se agrava, mesmo não tendo doença alguma.

Dona Zica freqüenta um terreiro de Umbanda. O cheiro, a luz tênue, os atabaques rufando, o canto das curimbas, e eis que de repente esta senhora de cinquenta e tantos anos incorpora um Exú. O cenário é surreal. Quem está ali, Dona Zica ou Exú?

Carl Jung sempre foi acusado de ser um pseudocientista. Talvez por ter insistido em dizer que o “irreal”, o “psicológico” é real. Se existe efeito a coisa existe, seja qual for o nome que se dê a ela.

Mas ao dizer que coisas “imaginárias” existem, ele levantou dois problemas: 1) demônios, deuses, anjos, fadas, duendes e elefantes voadores passariam a, digamos, “existir”. 2) Seria preciso admitir que nosso inconsciente é autônomo, que ele é capaz de nos pregar peças e de nos induzir a fazer coisas que não queremos. Perturbador!

Seu Pedrosa cansou de ouvir o médico dizer que o seu câncer é psicológico. Ele acabou morrendo. Seu corpo expirou por causa de uma doença que simplesmente nunca existiu.

Dona Zica deixou de ir aos terreiros. No momento está frequentando uma igreja evangélica carismática. Não incorpora mais o Exu. Agora é o Espírito Santo. 

A pergunta que fica é: somos mesmo seres autônomos?


Jones F. Mendonça