terça-feira, 10 de agosto de 2010

A REVISTA ÉPOCA E OS NOVOS EVANGÉLICOS

Por Jones Mendonça

Li hoje a matéria de capa da revista Época tratando sobre o que tem sido chamado de “nova reforma protestante”. A matéria expõe aquilo que já circula no submundo dos blogs apologéticos evangélicos há um bom tempo. Mas o termo “nova reforma protestante” é um exagero e tanto, já que nenhuma inovação teológica foi proposta por esses grupos. Fala-se muito em retorno ao cristianismo primitivo, mas isso já era feito desde os primeiros séculos do cristianismo, quando a igreja começou a se institucionalizar, principalmente após ter passado a ser a religião oficial do império romano, sob o governo de Teodósio I, em 380 d.C.[1].  Pregaram a mesma coisa Arnaldo de Brescia, Francisco de Assis, Bernardo de Claraval, São Domingos e Wesley. Mas com Lutero foi diferente. Ele não renovou a igreja, rompeu-a. A teologia da graça, o repúdio à autoridade papal e a ênfase nas Escrituras como única regra de fé foram inovações radicais que tornaram impossível a reconciliação entre protestantes e católicos. Falar em “nova reforma” é falar em novo rompimento e não é isso o que está acontecendo.

Lutero não questionou apenas a ética, mas os dogmas da Igreja. Ainda que a matéria diga que a igreja brasileira atravesse um tempo em que “ritos, doutrinas, tradições, dogmas [grifo nosso], jargões e hierarquias”[2]  estejam passando por um processo de revisão, eu não acho que seja bem isso. A última vez que a igreja evangélica se reuniu para elaborar dogmas cristãos irrevogáveis foi em 1895, em Niágara. Nenhum dos cinco pontos fundamentais apresentados pela reunião de Niágara foi questionado até agora pelos líderes citados na matéria (nem mesmo pelos mais liberais). O que existe são reinterpretações, como já fazia a neo-ortodoxia de Karl Barth em relação à teologia de Lutero e Calvino.

Apesar de não considerar os “novos evangélicos” como “novos reformadores”, creio que essa renovação (mas não reforma) é válida e necessária. No texto publicado pela revista Época o pastor Ricardo Agreste, referindo-se a necessidade de renovação, diz o seguinte: “O risco [...] é passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ninguém mais faz”.  O brilhante teólogo existencialista Paul Tillich já dizia mais ou menos isso há cerca de meio século: “ser humano significa receber respostas à pergunta do próprio ser e formular perguntas sob o impacto das respostas”[3]. Hoje as perguntas são outras. Não podemos continuar com as mesmas respostas.

Apesar da ênfase que a Época deu aos movimentos evangélicos alternativos, é preciso ter cautela.  Pensar que novas formas de articular a fé cristã representam uma solução definitiva para os problemas enfrentados pelo cristianismo contemporâneo é uma postura inocente que demonstra total desconhecimento da história da Igreja. Precisamos ser “metamorfoses ambulantes”, como já dizia o “herege” Raul Seixas. Mas sair por aí destruindo dogmas e abandonando templos só por achar que fazem parte de uma realidade ultrapassada é uma ingenuidade sem precedentes.

Lutemos pela renovação e contextualização do evangelho, mas sem abandonar a lucidez!

Notas:
[1] Código Teodosiano XVI 1 2. 
[2] REVISTA ÉPOCA. Os novos evangélicos,  09 de agosto de 2010, p. 86.
[3] TILLICH, Paul. Teologia sistemática, p. 76.