quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O QUE FOI O GNOSTICISMO?

Por Jones Mendonça

Uma das heresias que mais causou controvérsias nos dois primeiros séculos do cristianismo foi, sem dúvida, o gnosticismo, um sistema religioso sincretista que reunia misticismo oriental, filosofia grega, judaísmo alexandrino e algumas idéias cristãs[1]. A palavra gnosticismo vem de gnosis e significa ciência ou conhecimento. As idéias mais presentes no gnosticismo são as seguintes:
Dualismo – crença no antagonismo entre matéria e espírito. A palavra vem de dokeo, parecer.
Crença no Demiurgo – distinção feita entre o criador do universo, o Demiurgo, e o Deus verdadeiro.
Docetismo – conceito que defende Jesus tinha apenas aparência humana, mas não possuía nenhum elemento verdadeiramente humano em sua composição física.  
A origem do gnosticismo é incerta. Alguns estudiosos acham que um dos primeiros veículos da gnose foi o platonismo[2] (séc. IV a.C.). Crenças presentes em religiões orientais, na mitologia egípcia e em seitas judaicas, tais como os essênios de Qumran, seriam outros ingredientes desse caldeirão de idéias religiosas. Os gnósticos acreditavam que por causa de uma desordem no Pleroma (mundo espiritual) as almas ficaram aprisionadas em corpos materiais. Libertar-se do corpo e retornar ao estado de pureza primitivo era a principal meta do gnóstico. Mas para que essa jornada de retorno tivesse êxito seria necessário vencer cada um dos arcontes, seres cósmicos que buscam impedir que as almas cheguem ao céu. Jesus teria sido enviado para revelar o conhecimento (gnosis) a um grupo seleto de pessoas, que seriam retransmitidos aos seus iniciados. Só tendo acesso a esse conhecimento seria possível vencer os arcontes.

As epístolas joaninas já parecem nos mostrar a influência que os ensinamentos gnósticos tinham sobre os primeiros cristãos (I Jo 4,2-3; II Jo 2,7). A insistência de João na encarnação de Jesus parece sugerir que ele estivesse combatendo idéias gnósticas, que consideravam a carne essencialmente má, e, portanto, impossível de ser habitada por uma divindade como pregava o cristianismo apostólico. No final do século I ainda não havia distinção nítida entre os gnósticos e a comunidade romana ortodoxa. A disputa pela autoridade do ensino da verdadeira doutrina de Cristo era algo que se intensificava a cada dia. Dentre as várias personalidades que lideraram movimentos gnósticos, podemos destacar quatro: Cerinto, Valentino, Basílides e Marcião.

Cerinto - Segundo Irineu, conhecido como bispo de Lyon, a primeira negação da divindade de Cristo foi feita por um judeu chamado Cerinto. Para ele Jesus não é Filho de Deus, mas foi habitado pelo Espírito de Deus a partir do seu batismo[3]. Irineu, citando Policarpo, diz que certa vez João fugiu apressado após ter avistado Cerinto enquanto se dirigia aos banhos públicos de Éfeso. Ao se retirar ele teria exclamado: “fujamos antes que as termas venham abaixo, porque Cerinto, o inimigo da verdade, está lá dentro”[4]. 

Valentino (140 d.C.) – Valentino (ou Valentin) rompeu com a igreja sob o episcopado de Aniceto (155-166 d.C.). Elaine Pagels sustenta que o autor do Evangelho de Filipe era seguidor de Valentino. Para Valentino quem governa o mundo é o demiurgo, um deus intermediário que legisla e julga aqueles que infringem sua lei. Valentino identificava o demiurgo com o “Deus de Israel”[5]. Pagels diz ainda que o gnosticismo valentiano foi a forma mais sofisticada de ensinamento gnóstico e a que mais ameaçava a igreja[6].

Basílides (120 d.C.) - Segundo Irineu, Basílides pregou a existência de um deus supremo que contém sementes de outras realidades. Dessas sementes Deus extraiu uma série de entidades celestes, que por sua vez deram origem ao primeiro Arconte, um ser de natureza inferior, mas que gera o universo supralunar. Uma série de emanações dá origem a outros seres que ocupam 365 céus. No último há o Demiurgo, deus dos judeus. Jesus seria o portador da gnose, capaz de libertar o homem do seu estado decaído.

Marcião (140 d.C.) - O que sabemos sobre os ensinos de Marcião vem de seus opositores, por isso é difícil saber se eles foram transmitidos com exatidão. Marcião contrapunha o Deus do Antigo testamento ao Deus de Jesus Cristo. O primeiro, juiz implacável, colérico e cruel. O segundo, pura bondade, misericórdia e amor. Ele também relacionou o Deus do Antigo Testamento com o Demiurgo dos gnósticos, ligado à matéria e negou qualquer realidade humana a Jesus Cristo.  Segundo Irineu, quando Marcião se deparou com Policarpo, bispo de Esmirna, e perguntou “Tu me conheces?”, Policarpo teria respondido: “Sim, conheço-te, primogênito de Satã”[7]. No ano de 144 d.C a igreja de Roma condenou oficialmente Marcião[8]. Os seus seguidores ficaram conhecidos como marcionitas.

Havia duas concepções morais que se opunham nas seitas gnósticas: a primeira era caracterizada por um libertinismo descarado, já que os defensores dessa doutrina achavam que eram portadores de um conhecimento que ninguém lhes podia tirar. Era esse conhecimento que proporcionava a salvação. Uma outra moral, totalmente contrária à primeira, defendia um ascetismo tão vigoroso que condenava até mesmo as relações sexuais, consideradas “protótipo de todas as ofensas morais”[9].

Para os gnósticos a salvação é alcançada pela compreensão dos enigmas do céu e da terra. Para eles essa compreensão é conseguida quando o ser humano, orientado pelo mestre, dirige sua atenção para dentro de si mesmo.

Até o século XVII, tudo o que sabíamos sobre o gnosticismo vinha de textos escritos por apologistas cristãos, defensores da doutrina considerada ortodoxa. Mas em 1769 o turista escocês James Bruce comprou um manuscrito copta perto de Tebas. O texto só foi publicado em 1892 e continha uma suposta conversa entre Jesus e seus discípulos. A partir daí uma série de manuscritos foram sendo descobertos e publicados. Em 1945 monges do mosteiro de São Pacômio descobriram a mais completa coleção de escritos gnósticos. Os textos pertenciam a uma antiga biblioteca, conhecida como Biblioteca de Nag Hammadi. Esses textos só foram publicados em 1978.

Dentre os principais evangelhos gnósticos estão o Evangelho de Tomé, o de Filipe, o dos egípcios, o da Verdade e o evangelho de Maria Madalena. Os gnósticos afirmavam que esses evangelhos tinham sido escritos pelos discípulos de Jesus, mas o cristianismo ortodoxo os considerava uma farsa. Irineu (130-202 d.C.) diz que os gnósticos criaram textos supostamente escritos pelos apóstolos:
“publicaram suas próprias composições, enquanto se vangloriavam de ter mais evangelhos do que havia na realidade (...) Eles, na verdade, não tem evangelhos que não esteja repleto de blasfêmias. O que publicaram (...) está totalmente diferente do que nos foi transmitido pelos apóstolos[10].”
O gnosticismo começou a declinar progressivamente a partir do século III[11]. Grande parte do que escreveram os primeiros apologistas (defensores do cristianismo) foi uma tentativa de combater os ensinamentos dos gnósticos.

Inácio de Antioquia escreveu sua “Carta aos Tralianos” defendendo o caráter realístico da humanidade de Jesus. Irineu de Lyon escreveu “Contra as heresias” um tríplice ataque ao gnosticismo e Tertuliano de Cartago defendeu a unidade dos dois testamentos no clássico “Contra Marcião”.

Referências bibliográficas:
BLOCH, R. Howard. Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental. Tradução de Claudia Moraes. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.
CARBALLOSA, Evis. Colosenses: Orientacion para un estudio exegetico  y pratico. Michigan: Editorial Portavoz, 2000.
COMBY, Jean. Para ler a história da igreja, Volume I. São Paulo: Loyola, 1993.
COSTA, Paulo César. Salvatoris disciplina. Roma: University Press,2002,  p.30
DUQUOC, Ch.  Cristologia, ensaio dogmático I: O homem Jesus. São Paulo: Loyola, 1992.
DURANT, Will. A reforma: História da civilização européia de Wyclif a Calvino: 1300 – 1564. Rio de Janeiro: Record, 2002.
FERRATER-MORA, José. Dicionário de filosofia, volume 1. São Paulo: Loyola, 2000.
GONZALES, Justo. Historia de Cristianismo - Tomo 1. Miami. Unilit, 1994.
G. QUEVEDO, Oscar. Antes que os demônios voltem. São Paulo: Loyola, 2005.
JEFFERS, James S. Conflito em Roma: ordem social e hierarquia no cristianismo primitivo. São Paulo: Loyola, 1995.
MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da teologia reformada. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
PADOVESI, Luigi. Introdução à teologia patrística. São Paulo: Loyola, 1999.
PAGELS, Elaine. Além de toda a crença: o evangelho desconhecido de Tomé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
PAGELS, Elaine. Os evangelhos gnósticos. Tradução de Marisa Motta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
VV. AA. Lexicon - dicionário teológico enciclopédico. São Paulo: Loyola, 2003.
SESBOÜÉ, Bernard; WOLINSKI, J. O Deus da salvação – Tomo I (séculos I - VIII). São Paulo: Loyola, 2002.
WELBORN, Amy. Decodificando Maria Madalena: as verdades, as lendas e as mentiras. São Paulo: Cultrix, 2006.

Notas:
[1] CARBALLOSA, Evis. Colosenses: Orientacion para un estudio exegetico y pratico. 2000, p.25.
[2] SESBOÜÉ, Bernard; WOLINSKI, J. O Deus da salvação – Tomo I (séculos I - VIII). 2002, p. 39.
[3] DUQUOC, Ch.  Cristologia, ensaio dogmático I: O homem Jesus. 1992, p. 253.
[4] PAGELS, Elaine. Além de toda a crença: o evangelho desconhecido de Tomé. 2004, p.89.
[5] PAGELS, Elaine. Os evangelhos gnósticos. 2006, p.40.
[6] Id. ibid., p.33.
[7] Id., Além de toda a crença, p. 90.
[8] COSTA, Paulo César. Salvatoris disciplina, 2002, p.30
[9] BLOCH, R. Howard. Misoginia medieval e a invenção do amor romântico ocidental. 1995, p.96.
[10] PAGELS, Elaine. Os evangelhos gnósticos, p.18.
[11] VV. AA. Lexicon - dicionário teológico enciclopédico. 2003, p. 325.