segunda-feira, 15 de março de 2010

ARIEL ALVAREZ VALDÉS E O VATICANO

O Instituto Humanitas Unisinos vem publicando desde 2008 o caso do biblista argentino Ariel Alvarez Valdés, impedido de lecionar pelo Vaticano. Segue abaixo um resumo de toda a história.

O Dr. Ariel Alvarez Valdés, que teve sua permissão canônica suspensa para ensinar as disciplinas teológicas a partir do dia 5 de agosto de 2008, deixou o sacerdócio em julho de 2009. Tudo começou com uma denúncia feita pelo sacerdote jesuíta uruguaio Horacio Bojorje, incomodado com um artigo publicado por Alvarez Valdés sob o título: “¿El diablo y el demonio son lo mismo? [O diabo e o demônio são a mesma coisa?]”. No artigo, o biblista e teólogo argentino sustenta que em muitos casos os endemoninhados dos Evangelhos eram doentes com patologias desconhecidas na época. Outro ensinamento do biblista considerado perigoso pela Igreja é a negação da historicidade de Adão e Eva. Ariel Alvarez se negou a reafirmar que Adão e Eva são personagens históricos, como determinava o Vaticano. Em correspondência enviada a Religión Digital, 14-03-2010, o biblista argentino informa que “isso significava minha morte acadêmica”. O Estado de São Paulo publicou, em 22 de agosto de 2008, a defesa do biblista:

“Em todos estes anos procurei mostrar-lhes que, em primeiro lugar, nenhuma das minhas afirmações são dogmas de fé, nem transgridem nenhum dogma de fé. Se Adão e Eva existiram, não é nenhum dogma de fé. Se a Virgem Maria se parece ou não com as pessoas, não é nenhum dogma de fé. Todas estas afirmações não são dogmas de fé. Defendi-me dizendo isto e, em segundo lugar, todas estas afirmações são ditas por outros autores católicos e que nunca foram proibidos”.

Ariel é padre, biblista e teólogo, nascido em Santiago del Estero, Argentina, em 1957. Licenciado em Teologia Bíblica pela Faculdade Bíblica Franciscana de Jerusalém, Israel, e doutor em Teologia Bíblica pela Universidade Pontifícia de Salamanca, Arial Alvarez é considerado o biblista mais lido na língua castelhana.

Comentando o caso
Ao que parece a dura medida do Vaticano em relação ao teólogo tem a ver com sua popularidade, já que suas afirmações não são nenhuma novidade nos círculos acadêmicos. Se suas idéias não afetam nenhum dogma de fé, porque impedi-lo de lecionar? É importante destacar que ao negar a historicidade de Adão e Eva, o teólogo não está negando o valor espiritual do relato da criação, mas apenas que não o interpreta literalmente.


Se há uma coisa que admiro nos teólogos católicos é a capacidade que possuem de fazer uma leitura bíblica que fique entre o fundamentalismo (interpretação excessivamente literal), e o racionalismo (crítica e cética demais). Utilizei uma das obras de Ariel Alvarez Valdés (O que sabemos sobre a Bíblia) para escrever um artigo que postei aqui no Numinosum em outubro de 2009. Caso queira dar uma lida no artigo clique aqui.