domingo, 21 de fevereiro de 2010

UMA BREVE HISTÓRIA DO PROTESTANTISMO: DE MARTINHO LUTERO A EDIR MACEDO

Por Jones Mendonça

Desde que Cristo deixou fisicamente os apóstolos, a igreja teve que lidar com diversos problemas nos primeiros séculos: discordância em relação às suas doutrinas, perseguições, disputas pelo poder, etc. Após a conversão de Constantino ao Cristianismo, em 312, as perseguições deixaram de ser um problema. Concílios como o de Nicéia (325), foram organizados para estabelecer pontos doutrinários que viriam a se tornar dogmas cristãos aceitos até os dias de hoje. A escolha do bispo de Roma para governar a igreja, tendo primazia sobre os demais, deu coesão a igreja e até mesmo ao decadente império romano, após sua conquista pelos bárbaros. Com o tempo o poder papal ia crescendo. O Papa Bonifácio VIII, num discurso em 1303 comparou os poderes político (representado pelo rei) e religioso (representado pelo papa) com o sol e a lua [1]. Assim como a lua recebe sua luz do sol, argumentava Bonifácio, o imperador também deveria receber seu poder do Papa. Na visão de Bonifácio VIII a submissão de todos (inclusive o rei) ao Sumo Pontífice seria necessária para a salvação de toda a criatura.

No final da idade média alguns pontos doutrinários da igreja ainda não estavam muito claros. A doutrina da salvação da alma, por exemplo, era uma questão que dividia os teólogos. Por causa disso muitos pregadores mal intencionados abusavam do povo com a venda de indulgências. O mais famoso deles chamava-se João Tetzel.

Como a igreja acreditava possuir méritos excedentes de Cristo e dos santos (conhecidos de “tesouros da igreja”), achava que poderia utilizá-los para conceder indulgências, que era a supressão de uma penitência pública mediante o pagamento em dinheiro. Na penitência esperava-se o arrependimento do pecador, que precisava fazer uma reparação ou expiação por causa do castigo que o pecado acarretava. Segundo Edith Simon, a idéia de pagar pelo perdão com dinheiro foi derivada do conceito jurídico germânico, que substituía a punição corporal em decorrência de um crime pelo pagamento em dinheiro[2]. Para Marie-Therese Quinson a chamada “penitência tarifada” teve início no século VII[3].

As indulgências não eram bem vistas por humanistas como Erasmo de Roterdã, um intelectual muito à frente do seu tempo. Influenciado por eruditos como Erasmo, por reflexões pessoais de textos das Escrituras e por experiências paroquiais com fiéis que buscavam na penitência uma maneira de escapar do inferno, um proeminente frade Agostiniano chamado Martinho Lutero se impôs contra a venda de indulgências. No dia 31 de outubro de 1517 Lutero divulgou 95 teses que criticavam várias práticas que considerava enganosas no cristianismo popular. Estas teses foram o estopim para a Reforma Protestante. Após ler as teses de Lutero, o frade dominicano João Tetzel, exclamou: “Dentro de três semanas, farei esse herege ser lançado ao fogo”[4]. O máximo que conseguiu foi queimar suas teses.

Ao contrário do que muita gente pensa Lutero não quis dividir a igreja, mas reformá-la por dentro. Quando lemos suas famosas 95 teses, percebemos que imaginava que seriam acolhidas pelo Papa. Um outro erro comum é afirmar que Lutero pregou suas 95 teses no castelo de Wittenberg, quando na verdade não há provas seguras a respeito desse episódio. Segundo o historiador Martin Deher:
Em 31 de outubro de 1517, Martim Luder enviou aos bispos aos quais devia obediência – Jerônimo Schultz de Bandesburgo, e Alberto, de Magdesburgo. Não há provas concretas de que as tenha afixado [as 95 teses] na porta da igreja do castelo de Wittenberg, como anualmente lembra o mundo protestante. As teses foram enviadas a colegas que a difundiram, dando-lhes divulgação maior do que a esperada por Lutero. [5].
Além de Lutero, outros reformadores surgiram logo após a divulgação das 95 teses: Calvino (francês), Ulrich Zuínglio (Suíço) e o escocês João Knox. Na Inglaterra surgia a igreja anglicana, formada a partir do rompimento de Henrique VIII com a igreja de Roma.

O protestantismo se refere a todos os movimentos surgidos a partir das idéias da reforma, tais como o calvinismo, o anglicanismo e o luteranismo. O lureranismo se refere especificamente aos que adotaram a ortodoxia de Lutero. Houve muitas divergências entre os reformadores. No que diz respeito à ceia, por exemplo, Lutero e Zuínglio entraram em sério desacordo. Após uma tentativa de desfazer as diferenças, Lutero teria se recusado a fazer as pazes com o reformador suíço dizendo: “Não consentirei que o demônio me ensine coisa alguma em minha igreja”[6].

Da igreja anglicana surgiu um movimento chamado puritanismo, que pregava uma maior simplicidade do culto e dava maior valor à regeneração pessoal. Do movimento puritano e de grupos separatistas ingleses surgiram igrejas como a batista (no ano de 1606, em Gainsborough, Inglaterra) e a metodista (surgida de forma organizada em Bristol, em 1739).

Muitos vêem no metodismo a origem das igrejas pentecostais (1901), que enfatizam o recebimento de uma “segunda bênção”, o batismo com o Espírito Santo, cuja evidência é o falar em “línguas estranhas”[7]. O movimento pentecostal é conhecido como “segunda onda”. Outra característica do pentecostalismo é o milenarismo, que prega o retorno visível de Cristo a terra, governando os homens por um período literal de mil anos. No Brasil a maior e mais conhecida igreja pentecostal é a Assembléia de Deus.

O neopentecostalismo surge dentro do pentecostalismo e tem como características a ênfase na cura divina, na prosperidade material e nos rituais de exorcismo. Alguns estudiosos modernos se negam a ver o neopentecostalismo como tendo alguma relação com o pentecostalismo, denominando-o como pós-pentecostalismo[8]. Entre os neopentecostais é comum a vinculação entre o pagamento do dízimo e o recebimento de bênçãos. Nas palavras de Edir Macedo, por exemplo:
[o dízimo] É um compromisso que revela a fé prática. A de que Deus fica obrigado (grifo nosso) a esse compromisso com a pessoa que deu o dízimo...[9].
Dentre as igrejas neopentecostais mais conhecidas estão a Universal do Reino de Deus (Rio, 1977), a Igreja Internacional da Graça de Deus (Rio, 1980), a Comunidade Sara Nossa Terra (Goiás, 1976) e a Igreja Renascer em cristo (São Paulo, 1986). Dentre todas as igrejas neopentecostais a mais polêmica e criticada é sem dúvida a Igreja Universal do Reino de Deus. O sociólogo Ricardo Mariano expõe os principais motivos dessas críticas:
exposição constrangedora dos fiéis nos rituais de exorcismo, [...] invocar os deuses dos cultos afro-brasileiros, insistentes e nada recatadas pedidos de oferta, emprego do ritual da arruda, sal grosso e água fluidificada[10].
Após cerca de dois mil anos, o cristianismo ainda sobrevive, apesar de cada vez mais fragmentado. Um outro problema são os escândalos envolvendo líderes de igrejas cristãs, divulgados constantemente pela mídia. O último senso do IBGE, realizado no ano 2000, mostrou que o número dos “sem igreja”, ou seja, de pessoas que estão deixando de freqüentar regularmente uma igreja tem crescido vertiginosamente. São pessoas que querem se relacionar com Deus, mas que não conseguem vê-lo nas instituições religiosas. Diante desse quadro torna-se necessária uma reflexão feita a partir da própria história da igreja cristã, através da análise dos erros e acertos cometidos ao longo desses dois milênios. Criticar a igreja sem apresentar soluções não resolve o problema. Por outro lado, dizer que devemos nos calar diante dos escândalos envolvendo líderes religiosos é desconhecer o profetismo do Antigo Israel, que denunciava a plenos pulmões a injustiça, o roubo, a opressão e o luxo conquistado por reis e sacerdotes às custas dos pobres (Os 4,4; 5,1; Am 2,7; 4,1). É também desconhecer os elementos mais profundos da pregação de Jesus, fundamentados na convicção de que o Reino de Deus se opõe ao Reino da Injustiça. Uma igreja saudável se faz com diálogo, reflexão, oração e amor à obra de Deus.

Notas:
[1] GRINGS, D. Dadeus. História dialética do cristianismo. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1994, p. 146.
[2] SIMON, Edith. A reforma. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.35.
[3] QUINSON, Marie-Therese. Dicionário cultural do cristianismo. São Paulo: Loyola, 1999, p. 160.
[4] SIMON, Edith. A reforma. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.40.
[5] DEHER, Martin. A crise e a renovação da igreja no período da reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996, p. 26 (Coleção História da Igreja; v.3).
[6] SIMON, Edith. A reforma. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, p.58.
[7] OLIVEIRA, Raimundo F. de. A Doutrina Pentecostal Hoje. Rio de Janeiro: CPAD, p.34.
[8] Siepierski, Paulo. 1997. Pós-pentecostalismo e Política no Brasil, Estudos Teológicos, ano 37, no. 1
[9] LEMOS, Christina; TAVOLARO, Douglas. O bispo: A História Revelada de Edir Macedo. Larousse, 2007. p.166.
[10] MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, 2005, p. 38.