sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A TRANSMISSÃO DO TEXTO DO ANTIGO TESTAMENTO

Por Jones Mendonça

1. Introdução
Dificilmente os crentes se perguntam a respeito de como o texto bíblico do Antigo Testamento chegou até nós. Há entre os especialistas um relativo consenso de que os primeiros registros por escrito do Antigo Testamento ocorreram por volta do ano 1000 a.C., na época da monarquia[1]. Nessa época as tradições orais relativas aos patriarcas, ao êxodo e a tantos eventos ligados à fé e à história dos hebreus começavam a ganhar um registro por escrito. Alguns destes registros se perderam ao longo da história e serviram como fonte de informações para os escritores bíblicos, tais como o Livro das Guerras (Nm 21,14), Livro de Jasar (Js 10,13; 2Sm 1,18), Livro dos Atos de Salomão (1Rs 11,41), Crônicas de Samuel, Natã e Gade (1Cr 29,29), Livro de Semaías (2Cr 12,15), Crônicas de Jeú (2Cr 20,34) e Crônicas dos videntes (2Cr 33,19). Na época da monarquia o material utilizado para a escrita era o papiro. Mais tarde novos materiais mais duráveis e práticos para a leitura foram desenvolvidos. Veja a seguir as principais características de cada um deles.

2. Material utilizado na escrita da Bíblia
2.1 O papiro – O papiro é feito a partir de um junco que cresce principalmente no delta do rio Nilo. Após ser cortado em tiras, que eram justapostas em sentido horizontal e vertical, essas lâminas eram emendadas umas nas outras, formando um rolo. O papiro já era usado como material de escrita por volta do terceiro milênio antes de Cristo[2]. Os manuscritos de papiro são muito sensíveis à umidade, por isso só se conservaram em locais muito secos como o Egito. O mais antigo papiro cristão é um fragmento do Evangelho de João, datado no mínimo do ano de 125 d.C.[3]

2.2 O pergaminho – A maioria dos textos bíblicos disponíveis hoje, tanto do Antigo, como do Novo testamento, estão em pergaminhos, feitos a partir de peles de animais. Era usado desde o século V antes de cristo. As folhas do pergaminho ou papiro eram costuradas umas às outras, formando um rolo medindo de 10 a 12 metros, que eram enroladas em carretéis. Deriva do nome do rei Eumênio de Pérgamo, que governou entre 197-159 a.C. e teria desenvolvido esse novo material de escrita para sua biblioteca. Manteve-se como material de escrita até a Idade Média.

Os pergaminhos do Antigo Testamento mais antigos em hebraico foram encontrados entre os anos de 1947 e 1956 em algumas grutas em Qumran, às margens do Mar Morto, datados em geral de 100 a.C. - 100 d.C. Esses fragmentos ficaram conhecidos como Manuscritos do Mar Morto (MMM). De todos os livros que compões a Bíblia hebraica, apenas os livros de Neemias e Ester não foram encontrados em Qumran[4].

A confecção dos pergaminhos foi ficando cada vez mais luxuosa e sofisticada. São Jerônimo (340-420), um padre e doutor da igreja latina, protestou contra esse luxo:
“Tinge-se o pergaminho de cor de púrpura, traçam-se letras com ouro líquido, revestem-se de gema os livros, mas totalmente nu, diante das suas portas, Cristo está morrendo”[5].
“Que guardem, aqueles que quiserem, os velhos livros, ou os copiados em pergaminhos de púrpura, de ouro ou de prata, contanto que me deixem a mim e aos meus [...] códices menos belos que exatos”[6].

2.3 Os códicesPor volta do século II surgiram os códices. Ao invés de costuradas e enroladas em carretéis como nos pergaminhos, nos códices as folhas eram dispostas como num livro moderno.

Até a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, alguns dos mais importantes códices em hebraico eram os seguintes[7]:

- O Códice do Cairo dos Profetas C: É o manuscrito massorético mais antigo conhecido pelos eruditos. Foi escrito em Tiberíades e contém os Profetas Anteriores (de Josué a Reis) e Posteriores (de Isaías a Malaquias). Foi escrito por volta de 895 por Moisés ben Asher.

O Códice Or 4445 B: Também é conhecido como Códice Britânico e encontra-se atualmente no Museu Britânico de Londres. Abrange o Pentateuco com omissões. Foi escrito entre 925/930, talvez por Moisés ben Asher.

- O Códice de Alepo A (ou Codex Alepensis): Também conhecido como Códex aleph. Originalmente continha todo o texto do Antigo Testamento, mas um incêndio criminoso feito na sinagoga de Alepo em 1947 lhe causou danos irreparáveis. Foi escrito em Jerusalém por volta de 925/930 por Shelomoh ben Buya'a. Encontra-se atualmente na Biblioteca do Instituto Ben-Zvi, em Jerusalém.

- O Códice de Leningrado B19a (L): Foi escrito por volta do ano 1000 d.C. por Shemuel ben Yaakov no Cairo, Egito. Encontra-se atualmente na Biblioteca de São Petesburgo (antiga Leningrado). Este é o mais antigo manuscrito completo do Antigo Testamento e é a base da moderna Bíblia Hebraica Stuttgartencia (BHS). Uma nova edição do Antigo Testamento hebraico baseada neste códice está prevista para este ano: A Bíblia Hebraica Quinta (BHQ).

Todos os códices acima são conhecidos como Textos Massoréticos, desenvolvidos por um grupo de judeus conhecidos como massoretas (= transmissores e fixadores da tradição textual).

Notas:
[1] Cf. SICRE, José Luis. Introduccion al Antiguo Testamento. Estella: Verbo Divino, 2000, p.65.
[2] SCHNELLE, Udo. Introdução à exegese do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 2004, p.37.
[3] CARREZ, Maurice. A Bíblia, 1995, p. 77.
[4] FITZMYER, Joseph A. 101 perguntas sobre os manuscritos do Mar Morto. p. 32.
[5] Ep. ad Eust., 220, 32, PL, XXII, 418, Hilb, I, 193, 13 apud ARNS, Paulo Evaristo. Técnica do livro segundo São Jerônimo. Tradução de Cleone Augusto Rodrigues. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p.28.
[6] Vulg., Job, Praef, PL, XXVIII, 1083, A, ed. Romana, p. 73,8 apud ARNS, Paulo Evaristo. Técnica do livro segundo São Jerônimo. Tradução de Cleone Augusto Rodrigues. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p.28.
7] Cf. SIMIAN-YOFRE, Horacio. Metodologia do Antigo Testamento. p.45,46. ARCHER, Gleason L. Resenha critica de una introduccion as antigo testamento. p. 45.

Crédito da imagem:
Codex Giga
Biblioteca Nacional da Suécia