quinta-feira, 9 de novembro de 2017

AS ORIGENS DO MONOTEÍSMO ISRAELITA

Em seu livro “The Origins of Biblical Monotheism: Israel's Polytheistic” (Oxford / New York: Oxford University Press, 2001), indisponível em português, Mark S. Smith procura demonstrar como o politeísmo foi uma característica da religião israelita até o fim da Idade do Ferro e como surgiu o monoteísmo nos séculos VII e VI.

De acordo com Mark Smith, declarações monoteístas claras somente podem ser notadas a partir do século VII, em textos como Dt 4,35.39; 1Sm 2,2; 2Sm 7,22; 2Rs 19,15.19 (= Is 37,16, 20); Jr 16,19-20 e a porção do século VI de Is 43,10-11, 44,6-88; 45,5-7; 14,18.21 e 46,9. A pergunta que ele se propõe a responder é: por que o século VII?

Smith inicia sua argumentação a partir da análise de textos religiosos uragíticos (religião cananeia), cujo politeísmo estava estruturado em quatro níveis: 1) El/Asherah (o deus principal e sua esposa); 2) Setenta filhos divinos (Baal, Astarte, Anate, etc.); 3) Kothar wa-Hasis (o ajudante principal); e 4) Os servos da casa divina (que a Bíblia trata como mensageiros).

De acordo com sua análise, inicialmente Javé teria sido visto pelos israelitas como um dos setenta filhos de El, cada qual cumprindo o papel de divindade patronal de setenta nações. Tal crença, destaca Smith, foi preservada nos manuscritos hebraicos mais antigos de Dt 32,8-9 (Qumran). Nesta passagem, El é apresentado como chefe da família divina, e cada membro dessa família (os bney Elyim) recebe uma nação sob sua tutela. Nessa partilha Israel é considerado “porção de Javé” (32,9). Outro exemplo citado pelo autor é o Sl 82.

Em algum momento do período monárquico tardio Javé passou a ser identificado com El e, por conseguinte, como marido de Asherah. Esta visão religiosa aparece, por exemplo, no Salmo 29,1-2, texto que convida os “filhos de Deus” (bney Elyim) a adorarem a Javé, o Rei Divino. Os outros deuses/mensageiros tornaram-se simples expressões do poder de Javé. Em outras palavras, o deus principal tornou-se a divindade única. Mas por que neste momento? 

Smith indica dois conjuntos de mudanças. O primeiro estaria ligado a uma série de transformações na estrutura social das famílias. A “família extensa” como principal unidade social deu lugar a um “sistema de linhagem menor”. A noção de responsabilidade também teria mudado de “coletiva” (Acã em Js 8) para “individual” (Dt 26,16; Jr 31, 29-30; Ez 18). Ele conclui: “O surgimento do indivíduo como uma unidade social ao lado da unidade familiar tradicional proporcionou inteligibilidade ao surgimento de um deus único e não de uma família divina”. 

O segundo grande conjunto de condições estaria relacionado ao surgimento de dois grandes impérios: o neoassírio e o neobabilônico. A partir da queda se Samaria em 722 a.C. e de Jerusalém em 586 a.C., a ideia de do “deus patrono” não poderia mais se sustentar, exceto se se admitisse que Javé não era um deus tão poderosos como vinha sendo anunciado. O monoteísmo resolveu esse problema argumentando que, apesar da fraqueza do povo, seu deus não era fraco, mas Senhor de tudo.

Os monoteístas de Israel agora raciocinavam que Javé estava no topo do poder divino, e, correspondentemente, os deuses da Mesopotâmia não eram nada. O exílio passou a ser visto como o plano de javé para punir e purificar a única nação que o Senhor havia escolhido. Por conseguinte, passou a ser difundida a ideia de um “ungido de Javé” não judeu (Ciro, o persa, cf. Is 44,28, 45,1), como tradicionalmente era pensado na literatura bíblica mais antiga (ver Sl 2). 

*Resumo feito a partir de artigo publicado em inglês no The Bible and Interpretation.



Jones F. Mendonça