sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A REFORMA PROTESTANTE EM NOVE PARÁGRAFOS CURTOS

1. No dia 31 de outubro de 1517, ou seja, há exatos 500 anos, um monge católico escreveu 95 teses - pequenas declarações - criticando uma série de abusos cometidos por sacerdotes mal-intencionados. No título das teses vinha a seguinte declaração: “Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, será discutido o seguinte...”.

2. Embora não haja certeza de que essas teses tenham sido pregadas na porta de uma igreja de Wittenberg (atual Alemanha), certo mesmo é que caíram na boca do povo. Mais que isso, o conteúdo do texto era tão bombástico que acabou chegando nas mãos do papa e de seus auxiliares. E eles não ficaram nem um pouco contentes com o que leram.

3. E olha que Lutero não pretendia criticar o Papa, mas apenas os chamados vendedores de indulgências, pessoas que vendiam títulos supostamente capazes de eliminar os pecados dos fiéis. Em sua tese 65 Lutero denunciou o uso das indulgências como “redes para pescar a riqueza dos homens” (Redes que aliás ainda “pescam riquezas” de fiéis nos dias de hoje!).

4. A prática da venda de indulgências era tão escandalosa que Lutero chegou a dizer, em sua tese 81, que estava ficando difícil, até para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida difíceis de responder, feitas pelos leigos. Lutero esperava uma reação enérgica do papa ao tomar conhecimento de suas denúncias.

5. Bem, mas não foi bem isso o que aconteceu. O monge rebelde foi chamado pelo Papa para dar explicações no ano seguinte. E como se manteve firme em suas posições, sofreu uma ameaça de excomunhão em 1520, num documento que condenava 41 de suas teses (bula Exsurge Domini). Lutero queimou publicamente a bula papal e não arredou o pé.

6. Em janeiro de 1521, diante de sua recusa em negar tudo aquilo que havia declarado, veio a excomunhão (bula Decet Romanum Pontificem). Lutero só não acabou preso porque recebeu apoio de diversas pessoas, inclusive de algumas muito poderosas, como o príncipe Frederico da Saxônia. Para sua sorte, Frederico tinha um bom plano.

7. Lutero foi levado em segredo a um castelo e mantido sob proteção por quase um ano. Em março de 1522 regressou à cidade onde havia divulgado as 95 teses que se tornaram tão famosas. Ao questionar (e enfraquecer) a autoridade do papa, Lutero acabou favorecendo a florescimento de novos grupos, com queixas e demandas diferentes.

8. Exigindo o fim da servidão – em nome da liberdade de Cristo - surgiram os reformistas radicais, como os anabatistas. Enfatizando a dimensão absoluta da soberana de Deus destacavam-se os calvinistas. Na Inglaterra, no desejo de se libertar da influência do papa em seus assuntos pessoais (ou seja, dinheiro, poder e mulher), o rei Henrique VIII criou a sua própria igreja, a igreja anglicana.

9. Seria um exagero dizer que a liberdade de culto e a tolerância religiosa são conquistas devidas à Reforma. Os reformadores não eram pessoas tolerantes como por vezes se diz por aí (Miquel de Serveto e Sebastian Castellio que o digam...). Mas o movimento deu impulso a uma série de transformações culturais, políticas, econômicas e sociais que de forma alguma podem ser negadas. Não fazia parte do projeto inicial de Lutero romper com a Igreja. Queria apenas reformá-la por dentro. Hoje a Reforma é vista como um marco na história da civilização ocidental. Lutero mirou um pato, acertou um avião.  



Jones F. Mendonça