quarta-feira, 12 de março de 2014

REINO DE DEUS, REINO DOS HOMENS: BREVE HISTÓRIA DE UMA TIRANIA RELIGIOSA

Século VIII. O bispo de Roma (papa Zacarias, 741-752) alia-se a Pepino, o Breve, apoiando sua pretensão ao trono francês. Pepino é ungido rei em 754. Aproveitando-se da situação, a Igreja mostra a Pepino um documento por meio do qual o imperador Constantino (325) doa ao papa Silvestre (314-335) terras, honras e coloca a igreja de Roma acima das demais. Pepino acredita na autenticidade do documento (ou finge acreditar), a doação se efetiva e o papa ganha o status de soberano temporal. O papa já não se encontra mais sob o domínio político do império da Roma Oriental, mas dos francos e mais tarde do imperador alemão. Eis um trecho do documento (conhecido como Doação de Constantino):
Atribuímos-lhe o poder, a gloriosa dignidade, a força e honra do império, e ordenamos e decretamos que ela [a Igreja Romana] governe também sobre as quatro sés principais – Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém – e sobre todas as igrejas de Deus e, todo o mundo. E o pontífice que em cada tempo presidir sobre a santíssima Igreja Romana será o supremo e o principal de todos os sacerdotes do mundo inteiro e que conforme a sua decisão devem ser resolvidos todos os assuntos que se referem ao serviço de Deus e à confirmação da fé de todos os cristãos (BETTERSON, Documentos da igreja Cristã, p. 141-142).
No Natal de 800 o papa Leão III coroa Carlos Magno (filho de Pepino) na Igreja de São Pedro fazendo nascer o Sacro Império Romano. Mais tarde, com Gregório VII (1073-1085) e a publicação do Dictatus, o papa passa a ser infalível em pronunciamentos ex-cathedra e ganha o status de bispo universal. Com Inocêncio III (que nada tinha de inocente, 1160-1161) o papa assume o título de vigário de Cristo (representante de Deus na terra). No Solitae este mesmo papa chega a comparar o papado ao sol e o poder imperial à lua numa clara declaração de superioridade do papa sobre o imperador. A antiga igreja, outrora clandestina e perseguida, ganhava poderes inimagináveis. Então surgiram as cruzadas e a inquisição.

A falsidade do documento que serviu de impulso para o crescimento do poder da igreja foi demonstrada por Lourenço Valla em 1440. O erudito, especialista no idioma dos latinos, notou que o texto foi escrito no latim da renascença carolíngia e não no século IV.  O golpe dado por Valla enfraqueceu a igreja, já abalada pela imoralidade do clero, pelo surgimento de grupos dissidentes (como cátaros e valdenses), pelas denúncias de John Wyclif, Jan Hus, Erasmo e finalmente por Lutero.

O dia 31 de outubro de 1517 parecia anunciar o fim da tirania imposta pelos líderes da igreja. Então inventaram novos papas, não de carne o osso como os antigos, mas desta vez feitos de tinta e papel. Surgiam as confissões doutrinárias. E uma nova tirania se impôs.


Jones F. Mendonça