sábado, 15 de março de 2014

GITÂ, DE RAUL SEIXAS E O BHAGAVAD-GÎTÂ: NEM DEUS E NEM DIABO

Há quem interprete a música Gitâ, de Raul Seixas, como sendo uma espécie de poema dito pelo próprio Satã. Outros, no entanto, pensam que Raul está se colocando como o próprio Deus. A composição seria uma espécie deboche dirigido aos cristãos.  Mania de perseguição...

Na verdade a canção recebeu inspiração do Bhagavad-Gîtâ (bhagavan - Deus; gita - canção), belíssimo poema hindu que faz parte da epopeia Mahâbhârata. O poema ganhou sua forma atual entre os séculos V e I a.C. e tem como pano de fundo uma batalha entre os membros do clã Kula. Esse dramático cenário é apesentado num diálogo entre Krishna (divindade hindu) e Arjuna (guerreiro perturbado por ter que lutar com seus parentes). O narrador é Sanjaya.

Tanto no Bhagavad-Gîtâ como na letra da música de Raul Seixas aparece a ideia de que todas as coisas existem ou surgem na divindade, mas o divino, não obstante, transcende todas as coisas (metafísica panenteísta).

Seguem alguns trechos do Bhagavad-Gîtâ (em azul) em paralelo com a música de Raul (em vermelho):

16. Eu sou a oblação, o sacrifício, a oferenda aos antepassados, a erva bendita, o hino sagrado, a manteiga purificada, o fogo e também a vítima consumida em holocausto.

Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição

17. Sou pai, mãe, sustentador, avô deste Universo. Sou o objeto do conhecimento, o purificador, a sílaba OM e também o Rik, o Sâma e o Yajur.

Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio

19. Eu dou o calor, retenho e envio a chuva, sou a imortalidade e a morte, sou o ser e o não-ser, Arjuna.

Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada

32.Sou princípio, meio e fim de todas as coisas criadas, Arjuna; entre as ciências sou a ciência do espírito supremo e sou o argumento Vâda entre os que discutem;

O início, o fim e o meio
Eu sou o início
O fim e o meio
Eu sou o início
O fim e o meio

33.Sou a vogal A entre as letras; o composto copulativo entre as palavras compostas. Sou o tempo infinito, o mestre ordenador, cujas faces estão em toda parte.

Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor


Jones F. Mendonça