terça-feira, 11 de junho de 2013

VERDADES NÔMADES, SENTIDOS ERRANTES

Alguns rabinos estão a discutir a respeito da consoante que inaugura o livro de Bereshit (Gênesis). Querem saber por que o primeiro livro da Torá começa com a segunda letra do alfabeto hebraico (beyt) e não com a primeira (álef). É um belo final de tarde e um raio de luz atravessa a janela da sinagoga. Os talmidim (discípulos) estão ansiosos pelas respostas que serão apresentadas por seus mestres.

Um dos rabinos se levanta e diz: “A letra beyt é a segunda letra do alfabeto e também simboliza o número dois. O que nos ensina que para criar o texto bíblico foram necessárias pelo menos duas pessoas: Deus e o seu parceiro, o ser humano”. Outro rabino se põe de pé e apresenta uma explicação diferente: “O beyt é a letra de bênção (berakhá) e o álef a da maldição (arirá)”. Um terceiro rabino se levanta e apresenta uma explicação baseada no formato da letra beyt. O ferreiro martela a bigorna. Saem faíscas mil. Texto, depósito de infinitos sentidos.

Com um método de leitura desses não há qualquer diferença entre ler o Corão, os Vedas, o Avesta, uma receita de bolo ou uma lista telefônica. O que dirige a leitura é o devaneio criativo do leitor. Texto, caleidoscópio de sentidos. Gaveta de segredos da alma.

Talvez revele algo sobre o leitor. Já em relação ao redator...


Jones F. Mendonça