segunda-feira, 24 de junho de 2013

VÃO AS LEIS COMO QUEREM OS REIS

Século XVI, década de 30. Lutero, escandalizado com as teorias heliocêntricas de Copérnico publicadas em seu Commentariolus, em 1513-14, saiu-se com essa: 

“O povo dá ouvidos a um astrólogo pretensioso que se empenha em mostrar que a terra gira, e não os céus e o firmamento, o sol e a lua... Esse louco quer reverter o esquema inteiro da astronomia; as Santas Escrituras, porém, falam-nos que Josué ordenou ao sol quedar fixo, e não a terra”[1].

Calvino, numa exegese um tanto duvidosa, arrematou com o Salmo 93,1: “Firmou o mundo que não vacila”. E acrescentou: “Quem se aventuraria a colocar a autoridade de Copérnico acima da do Espírito Santo?”[2].

Quinhentos anos se passaram. A Bíblia ainda é um vaso na mão do leitor-oleiro. A interpretação é literal apenas quando e enquanto convém. Vale o ditado latino: “Quae vult rex fieri, sanctae sunt congrua legi” (vão as leis como querem os reis).  

Notas:
[1] Lutero, Table Talk , 69, in Fosdick, Great Voices of the Reformation, XVIII apud DURANT, Will. A Reforma, 2001, p. 724.
[2] In Russel. B, Hy of Western Philosophy, 528 apud id ibid.



Jones F. Mendonça