terça-feira, 4 de junho de 2013

TEOLOGIA EM BORRA DE CAFÉ

Aula de hebraico. Assim que conhece o alfabeto, o aluno pergunta pelo significado das letras. Quer saber, por exemplo, o significado do álef, primeira das 22 consoantes que compõem o alfabeto hebraico. Digo que essa letra deriva de um antigo pictograma que representa a cabeça de um boi. Explico que a letra, em sua forma primitiva, apareceu pela primeira vez na península do Sinai por volta de 1500 a.C. (há quem pense que foi inventada por garimpeiros a partir de alguns hieróglifos egípcios). Os fenícios, exímios navegadores e comerciantes, difundiram o alfabeto inventado no Sinai. O antigo pictograma foi sendo modificado pelos gregos e romanos até que se converteu no nosso “A” (no hebraico e no fenício o álef é consoante e não vogal).

O aluno diz ter lido num livro que o álef representa “o potencial não realizado” e “o som que existe antes do som”. Ouviu dizer que a mudez da letra (o álef é uma consoante sem som) faz alusão ao silêncio do ser humano diante da imensidão do universo. Por fim afirma ter ouvido de um rabino que os pequenos sinais que aparecem no canto superior direito e inferior esquerdo entre o traço diagonal que forma o álef representam, respectivamente, as águas superiores (alegria por estar perto de Deus) e inferiores (tristeza por estar longe de Deus). Enfim, pensou que a consoante tivesse algum significado especial, profundo. Um código secreto, talvez. Fica decepcionado.

Aconselho-lhe o tarô, a gematria, a kabalah, a adivinhação em borra de café, tripas de ave, runas, bola de cristal, etc. São caminhos diferentes que trabalham com o mesmo elemento: a imaginação criativa do sujeito.



Jones F. Mendonça