quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

GNOSTICISMO, TEILHARD DE CHARDIN E LITERATURA BRASILEIRA

Os Evangelhos gnósticos, 
de Elaine Pagels

Fala-se aqui e ali a respeito do que teria sido gnosticismo. Para uns, os gnósticos foram ascetas. Para outros, amantes da vida. Para uns eles defendiam a abstenção sexual. Para outros o prazer carnal. Há quem pense que o movimento foi uma heresia cristã. Outros entendem que foi um cristianismo mais autêntico. Geralmente se diz que o dualismo radical é uma de suas características fundamentais. Mas de acordo como Elaine Pagels a corrente gnóstica mais influente, o valentianismo, difere essencialmente do dualismo (dualistas seriam os gnósticicos sethinianos). Ora, não havia apenas um gnosticismo como também não havia (e não há até hoje) um só cristianismo. É preciso analisar os escritos gnósticos com cautela a fim de evitar simplificações. Muito do que foi escrito sobre o gnosticismo veio de seus opositores. A coisa não é tão simples como parece.

Em linhas gerais o movimento gnóstico defendia que o mundo foi criado por um deus menor, maligno, chamado de Demiurgo (artesão, em grego). Daí viria a rejeição pela matéria, obra desse deus mau. Libertar-se do corpo seria a maior meta do gnóstico. Livre desse “corpo de morte”, a alma poderia ascender até Deus e unir-se a Ele. Uma acentuada distinção entre o mundo terreno e o supra-terreno parece ser uma conseqüência óbvia dentro desse movimento. Agora veja só. O livro gnóstico de Tomé (também conhecido como “os ditos de Jesus”) anuncia que Deus não está distante dos homens. O lógion 77 declara que Ele pode estar tanto debaixo de uma pedra como dentro de uma madeira rachada pelo homem. O texto parece refletir a crença numa espécie de panteísmo (Deus e o universo se confundem) ou panenteísmo (o universo está contido em Deus), doutrina aparentemente incompatível com o dualismo maniqueísta que alguns afirmam ser doutrina fundamental para os gnósticos. O autor do livro de Tomé tem crenças muito parecidas com a de Valentino. No gnosticismo de Valentino a criação imperfeita não provém de uma falha moral do Demiurgo, mas de sua inferioridade em relação às entidades superiores. Tal crença permitiu que fosse construída uma visão mais otimista do mundo. Os padres apologistas combateram incansavelmente o gnosticismo e o cristianismo chamado ortodoxo venceu.  Mas com a descoberta dos manuscritos de Nag Hammadi, em 1945 no Egito, o movimento ganhou novo fôlego.  Recentemente acabei descobrindo por acaso que essa descoberta influenciou alguns escritores brasileiros.  

Há alguns dias recebi um pedido de ajuda do Wladimir, doutorando na UFBA e interessado na relação entre o gnosticismo e literatura brasileira (particularmente na obra de Lêdo Ivo). Queria saber se na história do cristianismo houve algum movimento ou personalidade que individualmente tivesse enfatizado a “transcendência na imanência”. Também buscava possíveis relações entre o gnosticismo e a ideia de um Deus indiferente, que não se ocupa da rotina diária dos homens. Expliquei-lhe que não sou especialista no assunto, mas que tentaria ajudá-lo dentro de minhas possibilidades. Respondi o e-mail e citei, dentre outras personalidades ligadas à Igreja, o padre jesuíta Teilhard de Chardin como sendo um interessante caso a ser investigado. Wladimir agradeceu a ajuda e me recomendou, caso o tema fosse do meu interesse, a leitura da tese do professor e poeta Cláudio Willer sobre a influência do gnosticismo na poesia contemporânea.

Aceitei sua sugestão e baixei a referida tese. Caso você também se interesse pelo assunto, tanto no aspecto teológico como literário, acho que valerá a pena dar uma lida.

Para baixar a tese, clique aqui.


Jones F. Mendonça