segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O PÉ, A PERNA E A GENITÁLIA: OS MÚLTIPLOS SIGNIFICADOS DE RÉGUEL


A palavra réguel em hebraico
A palavra hebraica réguel (geralmente traduzida por “pé”) é uma das muitas que confundem tradutores da Bíblia. Dentre algumas de suas traduções possíveis estão: pé, planta do pé, perna, órgãos genitais, passos, etc.

Devido ao seu excessivo apego à literalidade, a Bíblia Almeida Corrigida e Fiel (ACF) traduz réguel por pé em Is 7,20. O resultado (catastrófico) é este que você vê abaixo:
Naquele dia rapará o Senhor com uma navalha alugada, [...] a cabeça e os cabelos dos pés (reguelim; pl. de reguel); e até a barba arrancará.
Uma vez que réguel também pode significar “perna”, a Nova Versão Internacional (NVI) apresenta uma tradução melhor:
Naquele dia o Senhor utilizará uma navalha alugada [...] a sua cabeça e os pêlos de suas pernas e da sua barba.
Com uma rara ousadia, a Almeida Revista a Atualizada (ARA) esquiva-se de uma tradução mais literal. Como em alguns casos réguel é um eufemismo para os órgãos genitais, a tradução ficou assim:
Naquele dia, rapar-te-á o Senhor com uma navalha [...], a cabeça e os cabelos das vergonhas e tirará também a barba.
Um famoso caso onde réguel é um claro eufemismo para genitália (contrariando a opinião conservadora de Norman L. Geisler) ocorre em Rt 3,4:
Quando ele repousar [referindo-se a Boaz], notarás o lugar em que se deita; então, chegarás, e lhe descobrirás os pés, e te deitarás; ele te dirá o que deves fazer (ARA).
Para Norman Geisler, “descobrir os pés” é apenas “uma descrição literal de uma prática comum naquela época para demonstrar submissão e sujeição” (GEISLER, Norman, Manual popular: dúvidas, enigmas e contradições da Bíblia, p. 161). Este autor ainda argumenta que quando o texto diz que Rute se deitou ao lado de Boaz, o leitor deve entender que ela apenas se reclinou numa atitude de respeito (não, para ele não houve relação sexual!). A capa que Boaz estendeu sobre ela apenas indicaria a responsabilidade que ele tinha de acordo com a lei do levirato (!). 

Recurso comum entre apologistas moralistas: O sentido do texto deve ser sempre o literal, exceto para retirar do texto suas "impurezas". 


Errata: acompanhe a discussão sobre o texto de Rt 3,4 aqui

Jones F. Mendonça