domingo, 5 de julho de 2015

PONDÉ E A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO II

Pondé critica os teólogos da libertação por usarem como princípio hermenêutico a filosofia de Karl Marx. Diz que há incompatibilidade entre as ideias do filósofo alemão e o cristianismo. Mas a apropriação de ideias filosóficas por teólogos da Igreja vem dos primeiros séculos. Com maestria e sofisticação sempre souberam ler seletivamente as obras nas quais se apoiaram.

Alguns teólogos abusaram tanto de Platão e do estoicismo que Tertuliano (séc. II-III) viu-se obrigado a protestar: “que relação há entre Atenas e Jerusalém”. Aristóteles, apesar de conceber o universo como sendo eterno (o que contraria a interpretação tradicional do Gênesis), foi usado como base para a teologia de Aquino em sua Suma Teológica (séc. XIII). Calvino (séc. XVI) tricotou pergaminhos platônicos, como demonstram suas Institutas.

O que Pondé precisa entender é que os teólogos da libertação apenas fazem o que todos sempre fizeram. Eles também aprenderam a ler, interpretar e assimilar seletivamente as obras de Marx como todos os seus antecessores fizeram com outros filósofos (quem leu “Teologia do político e suas mediações”, de Clodovis Boff, sabe disso). É coisa do ofício, não da esquerda religiosa. Mas Pondé tem obsessão pela esquerda. É coisa quase doentia.



Jones F. Mendonça