quarta-feira, 2 de julho de 2014

AS ORIGENS DO PROFETISMO ISRAELITA

Leio a respeito das origens do profetismo israelita. Concentro-me no momento na seguinte obra:

FOHRER, Georg. História da religião de Israel. São Paulo: Edições paulinas, 1982.

O autor apresenta a tese de uma dupla origem do profetismo, produto de diferentes ambientes:
Ambiente nômade (profetismo visionário) – não associado a um templo; acúmulo das funções de sacerdote, mágico e chefe de clã; profecia ligada ao sentido da visão e pronunciamento da profecia em estrutura poética. Origem étnico cultural: beduínos árabes. Ex.: Nm 22-24 (Balaão);

Ambiente de terras cultivadas (extático) – associado a um templo ou cortes reais; relacionado com a vegetação e os cultos de fertilidade; profecia com êxtase. Origem étnico cultural: trácios e frígios da Ásia Menor. Ex.: 1Sm 18,10; 19,24 (Saul).

Fiz uma leitura atenta dos textos. Consultei o texto hebraico quando achei conveniente e tomei algumas pequenas notas.

Profetismo nômade - Balaão, exemplo de Foher para o profetismo nômade visionário, foi contratado por Balaq, rei de Moabe, para amaldiçoar os israelitas. Sua atividade profética de fato envolve visão e se expressa de forma poética. Ele precisa ver o objeto de sua maldição (Nm 23,13); diz que seu pronunciamento depende do que Javé lhe mostrar (Nm 23,3) e profere seu mashal (Nm 23,7) em forma poética (veja Nm 24,17). Balaão, no entanto, parece cair em êxtase (hb. nafal) em Nm 24,4, agindo de acordo com as características do “profetismo de terras cultivadas” (Trata-se de um acréscimo posterior?).

Profetismo de terras cultivadas - Saul, primeiro rei de Israel, é visto “profetizando” numa espécie de êxtase estimulado por instrumentos musicais (ele inclusive se despe diante de Samuel! Cf. 1Sm 19,24)). De fato os fenômenos ocorrem num ambiente diferente (a corte e não os campos de Moabe).  A presença do termo hebraico naba (1Rs 18,29) em passagens que descrevem a ação dos profetas de Baal sugerem um profetismo extático. Durante o ritual os profetas dançam, invocam a Baal em altas vozes e retalham seus corpos com lanças.

Para Fohrer as duas formas de profecia do antigo oriente Médio teriam se fundido, como parece sugerir o texto de 1Sm 9,9:
Antigamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, vamos ao vidente (roeh – profetismo nômade javista); porque ao profeta (naviy – profetismo institucional existente na Palestina) de hoje, outrora se chamava vidente.

Elias, profeta javista, em sua luta contra os cultos de fertilidade, teria introduzido uma concepção nova a fim preservar a viabilidade do javismo numa nova ordem política sem cair no extremismo de Acab. Javé, antigo deus da tormenta e do furor, teria ganhado contornos mais sutis, agora caracterizado por um governo tranquilo, comparável a uma calmaria depois da tempestade (1Rs 19,11). Javé, e não Baal, era quem fertilizava a terra.

Convencido?



Jones F. Mendonça