quarta-feira, 24 de abril de 2013

VIRGINITAS CARNIS, INTEGRITAS MENTIS

Estudos do ato sexual -
Leonardo da Vinci (1492)
Toda essa polêmica suscitada a partir do embate entre a Feliciano e Jean Willys me fez pensar a respeito da ênfase [super]exagerada que os cristãos de uma maneira geral dão aos chamados “pecados sexuais”. Tanto pecado para implicar...

Hoje, lendo uma entrevista concedida por James Hillman a Laura Pozzo, dei-me conta de que a origem dessa sexualidade mal resolvida está lá na raiz:
“Imagine uma cultura cuja principal imagem de Deus não tem genitais, cuja Mãe é sexualmente imaculada, e cujo Pai não dormiu com a mãe”.
A figura de Deus como Pai (sem esposa), Teotokos (Maria) como virgem imaculada e sem esposo parece ter deixado uma herança psicológica difícil de remover (ah, a tradição passou a apresentar os anjos como sendo assexuados, como se pênis e vagina fossem coisa suja).  

Logo nos primeiros séculos o celibato, a castidade e a continência se tornaram virtudes.  Agostinho, por exemplo, achava que a queda de Adão e Eva era a perda de controle sobre o corpo, particularmente sobre o pênis. Fico imaginando Agostinho no divã de Freud.

A questão da sexualidade é apenas um ponto negativo a destacar. A “sobrecarga cristã” (expressão de Hillman) se arrasta por dois mil anos. Nietzsche não via outra solução senão retornar à Grécia pré-socrática. Jung tentou salvar o cristianismo desses “desvios”. Fez apologia demais.

É, não sei...

O que posso dizer é que o cristianismo está enraizado em mim (avós, pais, tios, primos batistas). Negá-lo seria como lançar a mim mesmo, despedaçado, no caos. É uma relação de amor (há nele elementos que me seduzem) e ódio (repudio, por exemplo, a negação do mundo, tão presente na retórica cristã). Mesmo quando critico o que quero, no fundo, é salvá-lo. E você ainda ri?


Jones F. Mendonça