sábado, 6 de abril de 2013

RELEITURAS

Isaías de Duccio di
Buoninsegna (1308-11)
O profeta Isaías (o proto-Isaías) viveu no contexto do século VIII a.C. Ele aparece ao lado de reis como Ozias, Joatão, Acaz, Ezequias. É famosa sua discordância em relação a Acaz durante a guerra siro-efraimita. O rei de Judá pediu auxílio à Assíria contra a aliança entre a Síria e Efraim que queriam derrubá-lo. Isaías era contra.

Mas se Isaías viveu no século VIII, que sentido faz seu oráculo contra a Babilônia (grande ameaça a Judá no séc. VI) anunciando sua destruição nos capítulos 13 e 14? Note que no capítulo 14, na continuação do oráculo, fala-se inclusive num “retorno” (cf. 14,1). O texto, me parece, situa-se melhor no período do exílio (537-).

No verso 25, ainda no capítulo 14, algo curioso acontece. O império condenado passa abruptamente a ser o assírio (agora sim no contexto correto, como em 10,24). Um descuido? No verso 26 o juízo de Yahweh ganha um caráter universalista, elemento típico na literatura posterior. O texto consiste numa adaptação de um antigo oráculo contra a Assíria agora aplicado a Babel? É o que parece.

Para boa parte dos leitores da Bíblia essas “releituras” não ocorreram. Mas elas eram mais comuns do que parecem. Quem escreveu o Targun de Isaías (versão parafraseada da Bíblia hebraica em aramaico) não perdeu tempo. Em 14,29 foi inserida uma profecia messiânica: “Porque dos filhos dos filhos de Jessé [ou seja, da dinastia davídica] sairá o messias”.

Nos profetas clássicos era nítida a ênfase na necessidade de conversão, sempre relembrando dos grandes feitos de Yahweh no passado. Durante o exílio essa mensagem foi ganhando aos poucos novas cores. Surgia o profetismo escatológico. Mais tarde, talvez durante o judaísmo tardio, apareceu um tipo de literatura nova, o apocalipse (para alguns, filha e herdeira da profecia). Na paleta de cores que surgia havia pigmentos da Babilônia, da Pérsia, do helenismo, da própria religião israelita e talvez um pouco mais.

E os profetas modernos me aparecem condenando o sincretismo. Ora bolas...


Jones F. Mendonça