segunda-feira, 11 de junho de 2012

(QUASE) TODOS CONTRA RICARDO DE GONDIM


O juízo final, Jacob 
van Campen
A maioria dos Blogs evangélicos não fala de outra coisa: Gondim é um herege. Tudo porque o pastor resolveu defender publicamente: 1) que Deus não conhece as ações futuras das suas criaturas (uma opção voluntária do próprio Deus, com a finalidade de dar ao homem e a mulher verdadeira liberdade); 2) que a volta de Cristo (parousia) não será nas nuvens (tal descrição estaria condicionada a uma visão de mundo pré-científica, tal como defendia Rudolf Bultmann); e 3) que os não-cristãos também podem alcançar a salvação. Atenho-me hoje a declaração número um.

Os artifícios empregados por teólogos para resolver o conflito entre soberania divina e liberdade humana são muito criativos, mas todos falhos do ponto de vista lógico (nem discuto aqui versículos bíblicos, uma vez que entram em conflito entre si e, como consequência, são manipulados de acordo com as crenças de cada um). Calvino, por exemplo, dizia que até o pecado de Adão e Eva foi pré-ordenado por Deus. Ainda assim insistia em dizer que não pode ser imputada ao Criador a responsabilidade pelo pecado. Ora, faça-me o favor!

Para Armínio Deus não determina as ações humanas, mas as conhece de antemão. Fica a pergunta: se Ele (ou Ela) as conhece de antemão, já não temos um determinismo? Se a história de cada indivíduo foi escrita antes da “fundação do mundo” haverá alguém capaz de escapar dessa história escrita a ferro e a fogo? Personagens de um livro só fazem o que o autor escreveu (e se o autor da história humana não é Deus, quem é?).  

Gondim também não apresenta uma solução satisfatória para o problema. Ao dizer que Deus, num determinado momento (cronológico ou lógico, tanto faz), decidiu abrir mão de sua soberania, acaba por admitir que “antes” dessa decisão Deus era soberano e onisciente, e que, portanto, pré-determinou as ações humanas tal como defendia Calvino. O “abrir mão de sua soberania” seria mero “esquecimento” daquilo que já foi desejado e efetuado. Para ser coerente Gondim precisaria ser mais radical e defender que a soberania não é um atributo divino.

Todas as soluções apresentadas não passam de tentativas de entender o funcionamento de Deus. Tolas racionalizações humanas.  Meros discursos sobre o divino. A teologia de Gondim não é nova e nem melhor do que a de ninguém. E por que ainda fico com o pastor da Betesda? Por seu protesto, por sua coragem em desafiar o sistema, por seu lado humano. Gondim não é hipócrita, o que, em tempos modernos, já é uma grande virtude.


Jones F. Mendonça