quinta-feira, 7 de junho de 2012

MARIO LIVERANI: PARA ALÉM DA BÍBLIA, PARTE II [APONTAMENTOS]


Continuação (leia o post anterior clicando aqui).

Depois de discorrer no quarto tópico sobre o domínio egípcio, Liverani passa a falar sobre a “a ideologia egípcia” (pp. 38-42). Ele destaca que os reis locais da Palestina se dirigiam ao Faraó como “Sol de todas as eras” e como “deuses” (no plural, à semelhança do hebraico elohim). Como demonstração de reverência prostravam-se “sete e sete vezes” (ou seja, sete vezes de bruços e sete vezes de costas) diante do soberano egípcio e declaravam-se “terreno do seu caminhar” e “escabelo sob seus pés” (Liverani comenta sobre as figuras que ornamentam a sandália de Tutankamon, por isso inseri uma foto sua, que não aparece no livro). Alguns textos produzidos por reis cananeus e citados por Liverani falam por si só: 
Ouvi as palavras do rei meu Senhor e meu Sol, e eis que protejo Megido, cidade do rei meu Senhor dia e noite: de noite eu protejo os campos com os carros, de noite protejo as muralhas do rei meu Senhor. Mas eis que é forte a hostilidade dos inimigos (habiru) no lugar (LA 88, de Megido).

Tudo o que sai da boca do rei meu Senhor, eu observo isso dia e noite  (LA 12, de Ascalon).
 Outro exemplo que põe em evidência a absoluta submissão dos reis cananeus em relação ao Faraó é um breve juramento de fidelidade: “jamais nos rebelaremos contra Sua Magestade”. O juramento se concretizava no pagamento de um tributo anual, hospedagem de mensageiros e caravanas egípcias e no fornecimento de princesas para o harém real acompanhadas de um rico dote.

Um último ponto destacado por Liverani quanto às relações entre os reis cananeus e o Faraó é a indiferença deste último frente aos pedidos de ajuda dos reis locais para combater seus inimigos. Os reis cananeus estavam habituados a um sistema de relações políticas baseado na reciprocidade, que não tinha correspondência na ideologia egípcia. Liverani apresenta mais textos produzidos por reis cananeus: 
Vê: Turbasu foi morto na porta de Sile, e o rei ficou calado/inerte! (LA 41, de Jerusalém).

Saiba o rei meu Senhor que se salvou Biblos, serva do rei, mas é muito forte a hostilidade dos inimigos (Habiru) cntra mim. Não fique calado/inerte o meu Senhor em relação a Sumura, que não passe tudo da parte dos inimigos (habiru)! (LA 132, de Biblos).
Por fim, Liverani conclui: “o único interesse do faraó estava em manter sob controle o sistema, pois sabia muito bem que o eventual usurpador de um trono local haveria de lhe ser tão fiel quanto o rei expulso e que, portanto, não valia a pena ser defendido”. Para os reis cananeus Faraó era um “deus distante”, de incerta confiança.

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Jones F. Mendonça