sexta-feira, 15 de junho de 2012

O PASTOR, A SERPENTE E O PSIQUIATRA

BALDUNG GRIEN, Hans
Eva, a serpente e a morte
1510-12
Em 1948 o psiquiatra Willian Sargant foi convidado a passar um ano como professor visitante de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade Duke, na Carolina do Norte, localizada no conhecido “Cinturão Bíblico”. Muitíssimo interessado nos chamados “cultos de possessão”, Sargant ficou bastante entusiasmado ao ler nos jornais locais relatos de pessoas manipulando cobras venenosas em cultos revivalistas. Após fazer contato com um pastor da região, o psiquiatra partiu para a igreja com sua esposa, sua máquina fotográfica e seu gravador. Suas experiências e impressões foram registradas no capítulo 20, “Revivals nos EUA”, do livro “A possessão da mente: uma fisiologia da possessão, do misticismo e da cura pela fé” (Imago, 243 páginas.). Eis um pequeno trecho (p. 224):
O tabernáculo Zion em Durham era um salão pequeno. O pregador ocupava um espaço quadrado diante de uma plataforma para onde os participantes exaltados afluíam no decorrer da reunião. Entre eles e a plataforma permanecia um coro, cantando e batendo palmas ritmicamente. O pastor Bunn e seus crentes temiam manusear essas cobras venenosas antes de notarem certos sinais que constituíam a prova de que o Espírito Santo descera na reunião e possuíra a congregação, e assim protegendo-os do mal. Os sinais eram dados por algumas das pessoas presentes apresentando os assim chamados “exercícios do Espírito”. Na realidade esses exercícios eram agitações e tremores histéricos do corpo e dos membros,ocorrendo habitualmente pouco depois do início da música do harmônico e do acordeão, e só então é que não havia perigo em abrir a caixa, tirar dali as cobras e passá-las de mão em mão. Assim que as cobras surgiam a excitação do grupo aumentava enormemente, e de maneira óbvia o pastor conseguia controlar a excitação reduzindo ou acelerando o compasso das palmas. Se desejava pregar, fazia então com que a congregação passasse temporariamente por um silêncio respeitoso.
Nas demais páginas, Sargant estabelece ligação entre o manuseio de serpentes, sexo, paralelos do fenômeno com cultos africanos, conversão religiosa, suicídio, loucura, hipnose, transe, êxtase e possessão. Apesar do seu ceticismo, o psiquiatra confessa: “minha esposa observou-me que eu parecia estar tão hipnotizado e em transe quanto os manuseadores de cobras que eu fotografava”. 

A notícia, veiculada pela mídia, da morte do pastor pentecostal Mark Wolford, no dia 27/05/12, após manusear uma cascavel durante um culto (inspirando-se em Mc 16,18), é apenas um dentre muitos casos.  E pensar que tudo começou com Eva, a primeira que ousou desafiar o bicho mais astuto da terra!


Jones F. Mendonça