domingo, 29 de março de 2015

PARA ALÉM DA BÍBLIA, DE MÁRIO LIVERANI - PARTE V [APONTAMENTOS]

"Beyt David" (Casa de Davi) - Estela
de Tel Dan
...Continuação (leia o post anterior aqui).

Mário Liverani considera o século XII a.C. um período de transição na Palestina. Uma série de migrações impulsionadas por mudanças climáticas mudou o cenário político e social da região. Egito (norte da África) e Khati (Anatólia) perderam o controle da Palestina; a Assíria e a Babilônia, ocupadas com as invasões arameias, permitiram que a Palestina ficasse livre de interferências estrangeiras pela primeira vez depois de meio milênio. As cidades ganharam uma dimensão reduzida, cercadas por muros, revelando o maior interesse pela autodefesa.

O crescimento do elemento tribal
A configuração de uma nova ordem na Palestina foi acentuada pela ação de grupos pastoris. Liverani considera plausível – após rejeitar certos exageros - “uma contribuição de marginalizados e de debandados para o reforço de grupos pastoris e para o crescimento de sua autoconsciência” (p. 70). A gravitação das vilas agropastoris deslocou-se dos palácios para as tribos, que absorviam foragidos (habiru), com reivindicações socioeconômicas “antipalatinas”, dando às tribos (unidas pela comunhão parental) uma dimensão e uma força nova.  Como em populações aramaicas da Síria (Bit Adini, Bit Agushi, onde Bit significa “casa de” no sentido de estirpe), em Israel aparecem as expressões “estirpe de Davi” (Judá) e “estirpe de Omri (Israel).

Mudança tecnológica
A ruptura de tradições culturais, o surgimento de novos ambientes sociopolíticos e de novas ordens econômicas facilitaram a adoção de algumas inovações tecnológicas (vindas de dentro e de fora). Liverani dá destaque: 1) À metalurgia do ferro (lâminas de trabalho e de combate); 2) Ao alfabeto (o cuneiforme babilônico era acessível a poucos especialistas); 3) À domesticação do dromedário (área arábica) e do camelo (área iraniana), com capacidade de transporte muito maior que a do asno, permitido que os comerciantes atravessassem grandes espaços desérticos (surgimento das primeiras cidades na trilha das caravanas); 4) Às inovações técnicas da navegação, permitindo a exploração dos tráfegos mediterrâneos pelos fenícios “pré-coloniais” e gregos “homéricos”; e 5) Às inovações técnicas no campo da agricultura e das infra estruturas agrícolas, especialmente nos planaltos centrais da Palestina. Uma famosa passagem bíblica alude ao desmatamento nas montanhas: 
“Receberás a montanha, embora seja uma floresta, desmatá-la-ás e será tua até as extremidades” (Js 17,18).

Além de todos esses itens, Liverani também dá destaque às inovações hídricas: obras de canalização, poços mais profundos, cisternas com rebocos mais à prova d’água e canais subterrâneos. Ele finaliza explicando que todas essas inovações (ferro, alfabeto, domesticação do dromedário/camelo, navegação, agricultura, inovações hídricas) não se desenvolveram de repente nem ao mesmo tempo. Todas juntas caracterizaram o período do Ferro em relação ao período do Bronze e devem ser levadas em conta para compreender a diferente ordem territorial e a diferente cultura material.

Horizontes ampliados
A nova ocupação territorial da Palestina estendeu-se aos planaltos e às estepes semi-áridas, situação bem diferente da ocupação no Bronze recente, concentrada nas áreas facilmente utilizáveis. A dimensão dos assentamentos nas cidades diminuiu, mas nas vilas cresceram e se fortificaram. Todo o território foi ocupado de maneira mais homogênea e a zona habitada dilatou-se de modo extraordinário. A Palestina, terra marginal e fraco anel da “meia lua fértil”, acabou se vendo no centro de uma vasta rede de vias e trocas comerciais. Ainda assim, destaca Liverani: “a marginalidade da Palestina muda nas circunstâncias, mas permanece na substância” (p. 80).



Jones F. Mendonça