quarta-feira, 25 de março de 2015

APEDREJAMENTO, INFIDELIDADE, ALEGORIA E TOQUE DE SHOFAR

Yossef, um judeu do século III a.C., desconfia que sua esposa não é virgem. Orientado por seus pais ele leva o caso aos anciãos da cidade. Ele sabe que se a acusação for tomada como falsa será açoitado, multado em cem ciclos de prata e proibido de repudiar sua mulher (Dt 22,19). Mas se a acusação for confirmada o que acontece é o seguinte: 
Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade, 21 levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; porque fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim exterminarás o mal do meio de ti (Dt 22,20-21).

E pensar que muitas mulheres foram salvas do apedrejamento graças a indivíduos como Fílon de Alexandria (50 d.C.), um dos pioneiros na alegorização das Escrituras. Acontece que numa leitura alegórica “apedrejar” pode significar simplesmente “fazer um furo no coração petrificado pelo pecado com o toque do shofar”. Na exegese judaica medieval, além do sentido simples ou literal (peshat), o texto podia ter até três sentidos (remez, drash e sod). Em suma, a "interpretação criativa" é um péssimo método de interpretação, mas pelo menos pode salvar vidas.



Jones F. Mendonça