quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A FENDA DE JAVÉ



Zé Bobinho está tentando compreender o livro do Êxodo, mas está confuso. Em Ex 33,11 Moisés fala com Javé “face a face, como um homem fala com um amigo” (Nm 12,8 chega a dizer que Moisés contemplou a forma - a temunah - de Javé!). Mas em 33,20 o mesmo Javé diz (a Moisés?): “Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver”. Na sequência Javé é visto apenas “pelas costas” (em hebraico, ahor = parte de trás) depois de ter passado por cima de uma fenda na rocha.

Trata-se de um texto estranho, não é mesmo?

Para ouvir uma explicação para lá de escandalosa (mas com boa dose de coerência), assista ao debate entre Paulo Nogueira (UMESP) e Osvaldo Luiz Ribeiro (Faculdade Unida), em mesa da ABIB. O primeiro defende uma interpretação focada no leitor, aquele a quem é incumbida a tarefa de “ativar criativamente a memória potencial do texto”, resgatando suas “potencialidades dormentes” e preenchendo “as lacunas do não dito” (quem leu “Hermenêutica Bíblica”, de Croatto, conhece bem esse tipo de abordagem). O segundo, uma interpretação que olhe para o texto como janela para o passado, capaz de revelar o contexto em que ele nasceu e as intenções ocultas (ou perversamente ocultadas) pelas teias do tempo/pena do sacerdote.




Jones F. Mendonça