segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A VIDA DE JESUS, DE DAVID FRIEDRICH STRAUSS

Leio trechos (aqui e aqui) da obra “A vida de Jesus analisada criticamente” (1835), do exegeta e teólogo alemão David Friedrich Strauss. A principal tese de Strauss: "os evangelhos são a historização do mito Jesus". Strauss foi o primeiro (depois da publicação dos fragmentos de Reimarus) a distinguir o Jesus da fé do Jesus do histórico. A publicação do livro, com sua ênfase no esvaziamento do conteúdo sobrenatural dos evangelhos, foi um escândalo na Alemanha do século XIX. A perspectiva racionalista de Strauss foi adotada mais tarde por Ernest Renan, em seu famoso e não menos polêmico “A vida de Jesus”.  Ecos dos trabalhos de Strauss e Renan podem ser percebidos nos escritos de Nietzsche (1844-1900) e em diversos teólogos modernos que adotam o método histórico-crítico na análise das Escrituras. Abaixo alguns trechos selecionados por mim (fiz uma tradução livre a partir do inglês): 
QUANTO ÀS GENEALOGIAS DE MATEUS E LUCAS: “Jesus, por si mesmo ou por meio de seus discípulos, atuando sobre mentes fortemente dotadas de noções e expectativas judaicas, deixou entre seus seguidores uma convicção tão forte de sua messianidade que não hesitaram em lhe atribuir uma natureza profética de ascendência davídica [...] a fim de, por meio de uma árvore genealógica [...], justificar o seu reconhecimento como Messias”. 
QUANTO A SEU NASCIMENTO EM BELÉM: “Em nenhum outro lugar no Novo Testamento é mencionado o nascimento de Jesus em Belém. Em nenhuma parte a cidade aparece relacionada com seu suposto local de nascimento. Jesus sequer concede a Belém a honra de sua visita [...]. Em nenhuma parte ele apela à sua origem belemita como prova de sua messianidade, embora tivesse bons motivos para fazê-lo, considerando a repulsa que o epíteto “galileu” causava nas pessoas”. [...] a suposição de que Jesus nasceu em Belém é incompatível: [...] Jesus nasceu, não em Belém, mas, [...] com toda a probabilidade, em Nazaré”. 
QUANTO À SUA RELAÇÃO COM JOÃO BATISTA: “Assim, há boas chances de ser histórico: Jesus, atraído pela fama do Batista, colocou-se sob a tutela desse pregador, tendo permanecido algum tempo entre os seus seguidores, sendo iniciado em suas idéias sobre o reino messiânico que se aproximava”.   
QUANTO À SEU BATISMO NO JORDÃO: “a voz celestial e o Espírito Divino pairando sobre Jesus como uma pomba originaram-se a partir das idéias judaicas contemporâneas, tornando-se parte integrante da lenda cristã sobre as circunstâncias do batismo de Jesus. [...] os supostos elementos milagrosos do batismo de Jesus tem apenas valor mítico”.
Quanto a este último ponto, Strauss destaca a ligação feita pelos evangelistas entre a ruah de Javé agitando-se sobre as águas em Gn 1,2 e a bomba que sobrevoa as águas do dilúvio com um ramo de oliveira no bico em Gn 8,11. Estas duas passagens, relacionadas com uma interpretação judaica do Sl 52,2 (Davi é um ramo de oliveira, o Messias é a folha desse ramo), teria servido como pano de fundo para a criação do relato do batismo (pomba-Espírito/águas/renovação do mundo).


Jones F. Mendonça