quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A DIMENSÃO ESCATOLÓGICA DE ISAÍAS 24-27

De todos os livros classificados como proféticos, quatro merecem uma atenção especial uma vez que são considerados os primeiros profetas escritores: Isaias, Amós, Oseias e Miqueias.  Os quatro exerceram sua atividade no século VIII a.C., um período marcado pela prosperidade no reino do Norte governado por Jeroboão II. É forte a ênfase desses profetas nos problemas sociais provocados pela concentração da riqueza nas mãos da classe dirigente.

Mas na leitura e interpretação desses livros devem ser levados em conta os acréscimos e interpolações feitas em épocas tardias. O livro de Isaías, por exemplo, tem sido dividido em três partes, elaboradas, no mínimo, por três autores: Proto-isaías (pré-exílico, Is 1-39), Dêutero-Isaías (exílio, Isa 40-55) e Trito-Isaías (pós-exílico, Is 56-66). Há várias pistas que depõem a favor dessa distinção, mas quero me concentrar nos acréscimos e interpolações tomando como referência os vestígios da presença de um pensamento escatológico mais evoluído em textos erroneamente atribuídos ao Proto-Isaías. O trecho em questão: Is 24-27 (chamado de "'apocalipse' de Isaías"). Ainda que estejam inseridos no bloco atribuído ao Proto-Isaías, tais capítulos se enquadram muito melhor no período pós-exílico.

A descrição de uma ruína cósmica em Is 24 (“castigará os exércitos do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra”, cf. 24,21), o uso de símbolos mitológicos (“com sua espada severa... castigará o Leviatã”, cf. 27,1), o universalismo (“o Senhor dos exércitos dará neste monte a todos os povos um banquete”, cf. 25,6), a crença na ressurreição (“os teus mortos viverão, os seus corpos ressuscitarão”, cf. 26,19) e o forte desejo por um futuro radicalmente diferente, expresso na esperança de que Deus fará “desaparecer a morte para sempre” (25,7) e que vai “enxugar as lágrimas em todos os rostos” (25,8), refletem o desespero diante da decadência da comunidade pós-exílica.

Além de todos esses elementos, tipicamente presentes em textos pós-exílicos, outro indício bem forte da composição tardia do texto é Is 27,12:
Naquele dia o Senhor padejará o seu trigo desde as correntes do Rio [Eufrates], até o ribeiro do Egito e vocês, israelitas, serão ajuntados um a um”.
O texto supõe uma diáspora dos israelitas, referência a parte do povo que se fixou principalmente na Mesopotâmia e no Egito após a queda de Jerusalém nas mãos de Nabucodonosor em 587 a.C. A datação do texto, portanto, deve ser situada, no mínimo, para o período o exílio (587-537).

Há dois textos que merecem uma investigação melhor. O primeiro, particularmente curioso, aparece em 24,21:
Naquele dia Yahweh visitará o exército do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra. E serão ajuntados como presos numa cova, e serão encerrados num cárcere; e serão punidos depois de muitos dias”.
Há quem pense que “exército do alto” (tzeba hamarom) seja uma referência aos “falsos deuses”, mas nessa época o henotismo já havia sido superado pelo monoteísmo. Talvez seja apenas um elemento mitológico tomado das nações vizinhas, como em Is 14. O texto pode ter sido utilizado como matriz para o desenvolvimento da crença nos “anjos caídos”, cuja história é contada em detalhes no livro apócrifo de 1Enoque (II séc. a.C.) e repetida em livros canônicos como Judas (6,7) e Apocalipse (12,7-9).  

O segundo texto é o que fala da ressurreição dos mortos (26,19).
Os teus mortos viverão, os seus corpos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó; porque o teu orvalho é orvalho de luz, e sobre a terra das sombras fá-lo-ás cair.
É possível que a referência aí seja ao crescimento numérico do povo de Israel, abalado pela dramática experiência do exílio. “Ressuscitar” (qutz), nesse sentido, seria uma metáfora poética, como na visão de Ez 37. Mas se levarmos em conta os textos do Trito-Isaías, sua ênfase na renovação radical do mundo (65,17), e a longevidade restituída aos israelitas, tal como experimentada pelos antigos patriarcas (“quem morrer aos cem anos ainda será jovem” e “terá vida longa como as árvores”, cf. 65,20-22), parece-me mais provável pensar, considerando ainda a presença de tantos elementos de uma teologia tardia, na hipótese de que se trata mesmo de uma referência à ressurreição dos mortos tal como aparecem nos livros de Daniel (12,1-3) e I Enoque (51). Caso seja esta a interpretação correta, será preciso deslocar a redação do texto para o II século a.C. Neste caso Is 24-27 constituiria uma obra à parte do Proto-Isaías, Dêutero-Isaías e Trito-Isaías.  


Jones F. Mendonça