quarta-feira, 30 de novembro de 2011

TRANSE E POSSESSÃO

 "O exorcista", 1973.
Um tema que desperta anos meu interesse há alguns anos é o fenômeno da possessão. Entenda-se por possessão um estado em que a individualidade de uma pessoa é temporariamente substituída por outra. Se essa nova individualidade é assumida por um demônio, anjo, espírito desencarnado, zars, pepos ou o que quer que seja, pouco importa. O fato é que não podemos classificar todos os casos de possessão como fingimento. Certa vez tive o desprazer de me deparar com um rapaz em "estado de possessão" enquanto participava de uma ação social numa rodoviária. O rapaz, com os olhos fixos nos meus, bebia sucessivamente os inúmeros copos de refrigerante que eu lhe servia. Ao final de cada golada ele dizia: mais! O refrigerante acabou e ele começou a dizer coisas sem sentido. Em meio a essas frases aparentemente desconexas iam saindo revelações sobre a minha vida pessoal. Um experiência perturbadora. 

A busca por uma explicação para os fenômenos de possessão foi empreendida por estudiosos proeminentes tais como Freud, Carl Jung (psicanalistas), Pierre Verger (antropólogo), William James (filósofo) e Aldous Huxley (escritor).   Um livro particularmente interessante sobre o assunto foi escrito pelo psiquiatra inglês William Sargant. Ele viajou pelo mundo ao lado de sua esposa registrando experiências de possessão com sua câmera e seu gravador. O livro contém algumas fotos e muitos relatos impressionantes. O foco do seu trabalho é o ambiente altamente sugestionável produzidos por alguns cultos religiosos (vodu, avivalistas cristãos, umbanda, etc.). 

Em diversas ocasiões Sargant confessa o quão envolvente pode ser um culto religioso:
"Pessoalmente sempre me mantive vigilante contra isso [ser subitamente dominado pelo estado de possessão], mantendo a mente ocupada ao filmar, fotografar e gravar o que se sucedia ao meu redor. Manter a mente vazia, aumentando a emotividade pessoal, ficando com raiva ou com medo, é tornar-se altamente vulnerável a essa experiência..." (SARGANT, William. A possessão da mente, p. 220). 

"Minha esposa observou-me que eu parecia estar tão hipnotizado e em transe quanto os manuseadores de cobras que eu fotografava [em revivals nos Estados Unidos] (Id. ibid, p. 228)" .

"Temi ser envolvido repentinamente pelo ritmo e entusiasmo, terminando por entrar em estado de transe e êxtase" (Id. ibid. p. 229). 
Um outro livro de Sargant sobre o assunto (Battle for the mind, 1957) provocou tanto impacto na época em que foi publicado que o famoso pastor da capela de Westminster, D. Lloyd-Jones (forte opositor da teologia liberal), se viu obrigado a proferir uma palestra (conversões: psicológicas e espirituais) para ministros cristãos no final da década de 50 com o intuito combater seu ceticismo. A palestra do pastor Lloyd-Jones, ao lado de inúmeras outras, foi publicada no Brasil pela editora PES (Discernindo os tempos: palestras proferidas entre 1942 e 1977). 


Jones F. Mendonça