quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NOS SUBTERRÂNEOS DO INCONSCIENTE


Uma tartaruginha marinha sai do seu ovo numa praia qualquer da América do Sul. Surpreendentemente ela não hesita e parte imediatamente para o lugar mais improvável: as agitadas ondas do mar. Ninguém ensinou aquela coisinha miúda a andar, nadar, tampouco que o mar é um bom lugar para se viver. Mas é para lá que ela vai com todas as suas forças.

Uma ninhada de pintainhos acaba de nascer numa fazenda no sul da França. Mal saem dos ovos os desajeitados pintainhos partem para uma área descoberta e se deparam com um falcão. A reação é imediata. Os pintainhos fogem apavorados. O comportamento se repete até mesmo quando avistam um falcão de madeira. Curiosamente eles não temem aves como pombos ou pelicanos. Tal comportamento não foi ensinado pelos pais ou por outros membros da espécie, mas recebidos por herança. A origem desse fenômeno está no sistema nervoso central e é acionado pelos  “mecanismos liberadores inatos”.

Outro fenômeno curioso observado em animais é a estampagem (imprinting). O etólogo Konrad Lorenz notou que nas primeiras horas de vida um patinho tem grande probabilidade de se apegar à primeira coisa que vê. Ele adorava entrar na sala de aula acompanhado de patinhos “apaixonados”. Diferentemente do comportamento das tartarugas e dos pintainhos, a ligação entre os patinhos e o “objeto amado” é adquirido em vida. Estudos sobre a ocorrência da estampagem em seres humanos não são conclusivos.

Há paralelos entre as observações feitas pelos etólogos e a psicanálise. Carl Jung, por exemplo, percebeu que a psiquê humana possui um substrato psíquico comum de caráter inato (que ele chamou de inconsciente coletivo). Tal substrato psíquico pode se manifestar em sonhos ou mitos, apresentados na figura dos arquétipos. O inconsciente coletivo se distingue do inconsciente pessoal. Este último não possui caráter universal ou hereditário, mas contém lembranças perdidas ou reprimidas (não apenas de cunho sexual, como sustentava Freud).

As implicações das teorias de Jung são óbvias: no subterrâneo da nossa psique agem forças que escapam ao nosso controle. O homem não está preso somente ao passado de sua infância, mas também ao passado de sua espécie. Coube a Jung colocar a psiquê dentro do processo evolutivo.  

Jones F. Mendonça