domingo, 5 de dezembro de 2010

PARALELISMOS ENTRE JESUS E JOÃO BATISTA NA TRADIÇÃO LUCANA



Quem lê o evangelho de Mateus com atenção percebe os inúmeros paralelos que o livro estabelece entre Moisés e Jesus: matança dos recém nascidos, fuga do/para o Egito, 40 anos/dias no deserto, etc.).

John Dominic Crossan, em seu livro “Jesus, uma biografia revolucionária”, destaca cinco notáveis paralelos existentes entre Jesus e João Batista descritos no evangelho de Lucas. Como numa peça teatral, ele divide o paralelismo em cinco atos:

1) Os anúncios angélicos:

  • Zacarias, pai de João, recebe a visita dos anjos para tratar a respeito do nascimento de João (Lc 1,5-25);
  • Maria recebe a visita dos anjos anunciando o nascimento de Jesus (Lc 1,26-38).

  • Zacarias questiona o anjo: “donde terei certeza disto, pois sou velho, e minha mulher é de idade avançada (1,18).
  • Maria questiona o anjo: “Como se fará isso, pois sou virgem” (1,34).

  • Gabriel diz de João: “ele será grande diante do Senhor” (1,15);
  • Gabriel diz de Jesus: “ele será grande e se chamará Filho do Altíssimo” (1,32).

De acordo com Crossan o objetivo de Lucas seria exaltar Jesus acima de João. O segundo nasceu de pais velhos e estéreis, o primeiro, de uma virgem!

2) O nascimento divulgado:

  • O nascimento de João é relatado primeiro, mas de modo mais sucinto, em Lc 1,57-58. Quando João nasce, em 1,58, somente “vizinhos e parentes” se congratulam com Isabel.
  • O nascimento de Jesus é relatado de modo mais minucioso, em 2,7-14. Quando Jesus nasce em 2,13, há “uma multidão da hoste celeste louvando a Deus”.

Há neste caso um claro contraste entre “vizinhos e parentes” celebrando o nascimento de João e “uma multidão da hoste celeste” no nascimento de Jesus.

3) A circuncisão e nomeação das crianças:

  • No oitavo dia o filho de Isabel é circuncidado e seu pai, Zacarias, escolhe o seu nome, João.
  • No oitavo dia o filho de Maria é circuncidado e recebe de um anjo o nome “Jesus”, que foi escolhido “antes de ser concebido no ventre”.

Note que o nome de João vem da terra (Zacarias) e o nome de Jesus vem dos céus (anjos).

4) A apresentação pública e a profecia do destino:

  • A apresentação pública de João ocorre na cada de seus pais e o seu nascimento foi divulgado num espaço geográfico delimitado: “todas as montanhas da Judéia” (1,65). Zacarias profetiza sobre o destino de João.
  • A apresentação pública de Jesus ocorre no templo e o relato do seu nascimento tem uma repercussão muito maior: “todos os que esperavam a redenção de Jerusalém” (2,38). Simeão e Ana profetizam sobre o futuro de Jesus.

Há mais uma vez claros contrastes entre as duas passagens. João é apresentado numa casa, Jesus no Templo. A repercussão do nascimento de João é limitada geograficamente (montanhas da Judéia), a de Jesus não possui fronteiras geográficas (todos os que esperavam a redenção de Jerusalém). Uma só pessoa profetiza sobre João (Zacarias) e duas profetizam sobre Jesus (Simeão e Ana).

5) A descrição do crescimento do menino:

  • João crescia e se fortalecia no espírito e habitava nos desertos.
  • Jesus “crescia em “sabedoria”, “em estatura” e “em graça, diante de Deus e dos homens”. Ao invés do deserto, como João, Jesus crescia surpreendendo os mestres no Templo.

Por fim temos dois novos pólos: o deserto, lugar de desolação, e o Templo, símbolo da presença de Deus. João e Jesus, dois profetas com destinos completamente diferentes. Na opinião de Crossan, Lucas quer enfatizar que “João é a condensação e a consumação do passado de seu povo, mas Jesus é muito maior, muito maior que João” (CROSSAN, Dominic. Jesus, uma biografia revolucionária, p. 27).