sábado, 13 de junho de 2026

HARTMUT ROSA E A ACELERAÇÃO SOCIAL


1. Nesta semana, lendo matéria publicada na Folha de São Paulo, tomei conhecimento de uma controversa tese defendida por Hartmut Rosa, professor de sociologia teórica e geral no Institut für Soziologie da Universidade de Jena, Alemanha. Em “Democracy needs religion”, o autor defende que a religião fomenta uma cultura de diálogo, escuta e reflexão, tornando-se um instrumento muito útil no fortalecimento da democracia. Ainda não li. Por isso não comento.

2. Fiquei curioso em relação ao trabalho do autor e acabei adquirindo “Alienação e aceleração” (Vozes, 2023, 160p.), obra cuja tese principal é a seguinte: a aceleração social tornou-se a principal força estruturante da modernidade tardia e constitui uma causa fundamental das formas contemporâneas de alienação. Rosa fala da aceleração em três níveis: aceleração tecnológica, aceleração das mudanças sociais e aceleração do ritmo de vida.

3. Para o sociólogo, os efeitos da aceleração tecnológica “transformam o ‘regime espaço-tempo’ da sociedade”, fazendo com que seja como “algo que comprime ou mesmo aniquila o espaço” (p. 21). Eis o grande paradoxo: as tecnologias aumentam a velocidade do transporte e da comunicação e, no entanto, nossa percepção é a de que jamais temos tempo livre para o lazer ou para a família, por exemplo.

4. O segundo nível de aceleração não ocorre, como no primeiro, “dentro da sociedade”, mas “na própria sociedade”. Tudo muda muito rápido: atitudes, valores, hábitos, moda, estilos de vida, relações, obrigações sociais e até a linguagem. Rosa propõe um teste cotidiano: por quanto tempo permanecem estáveis endereços, números de telefone, amigos, estabelecimentos comerciais, partidos políticos e astros de TV? O impacto dessa aceleração é brutal na família e no trabalho.

5. O último nível, a aceleração do ritmo de vida, é impulsionado pela “fome de tempo”, mais urgente e assustadora faceta da aceleração social, segundo Rosa. Mas o que seria essa “fome de tempo”? Ela surge a partir da percepção de que o tempo está acabando, uma vez que passa a ser tratado como uma espécie de matéria-prima escassa e valiosa. O resultado é o desejo ou o sentimento da necessidade de fazer mais coisas ao mesmo tempo.

6. Em uma sociedade baseada na experiência comum da escassez crônica do tempo e por uma lógica que exige constante inovação, crescimento e dinamização, os indivíduos deixam de experimentar uma conexão significativa com seu trabalho, com pessoas, com a natureza e até consigo mesmos. No último capítulo o autor busca responder à seguinte pergunta: “por que a aceleração leva à Entfremdung [alienação ou estranhamento]?”.

7. Rosa acolhe parcialmente o conceito de alienação de Marx, deixando em aberto se a lógica da mudança social é ou não puramente econômica. Para ele, a aceleração reforça a alienação espacial porque cria mobilidade e desengajamento em relação ao espaço. Reforça a alienação das coisas porque elas se tornam obsoletas rapidamente. Reforça a alienação das nossas ações porque não conseguimos realizar boa parte daquilo que planejamos.

8. Alienados do espaço, do tempo, de nossas experiências e de nossas ações, somos levados – segundo Rosa – à condição de uma profunda autoalienação. O livro é concluído assim: “a essa altura, isso tudo certamente é mera especulação, mas uma especulação que acredito ser suficiente interessante para estimular mais pesquisas a respeito de uma teoria crítica da aceleração e da alienação” (p. 150).


Jones F. Mendonça

Nenhum comentário:

Postar um comentário