quinta-feira, 11 de setembro de 2014

FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO E FUNDAMENTALISMO CRISTÃO: TUDO IGUAL

O surgimento do fundamentalismo islâmico tal como conhecemos hoje está diretamente ligado à queda do império Turco Otomano em 1924. É fenômeno novo, portanto. Kemal Ataturk, pai da Turquia moderna; Nasser, do Egito e Reza Pahlevi, no Irã, caminharam em direção à separação entre a religião e o Estado, mas apenas a Turquia se manteve como Estado secular democrático (o Líbano é outro exemplo moderno). A maior parte das nações árabes (ou muçulmanas não–árabes, como a Turquia e o Irã), perdidas no processo de fragmentação do império otomano do qual faziam parte e sentindo-se humilhadas e exploradas pela Europa pós-guerra, viram nas suas escrituras sagradas a única solução para restabelecer a ordem: a instauração da Shari’a, a lei islâmica. A Irmandade Muçulmana, por exemplo, fundada em 1928, criou um slogan bem conhecido na órbita islâmica: “o Corão é nossa constituição”.

A expressão “fundamentalismo” quando aplicada ao universo cristão é fenômeno do final do século XIX. Nasce como tentativa de combater as transformações ocorridas na sociedade europeia a partir do Renascimento. Como entre os muçulmanos, trata-se de uma tentativa de manter as antigas tradições religiosas, morais e culturais, entendidas como fundamentais para a manutenção da ordem. No século XVII, pensadores como Spinosa e Voltaire começaram a questionar muitos dogmas da fé cristã. Algum tempo depois, nos séculos XIX e XX surgiram novas ideias vistas como ameaças à fé: a teoria da evolução, de Charles Darwin e o trabalho de pensadores como Feuerbach, Nietzsche, Karl Marx e Freud (todos foram críticos ferrenhos da religião).

Alarmados com a “ameaça modernista” - movimento que tentava compatibilizar a fé cristã com as novas descobertas científicas - foi criada, em 1846, a Aliança Evangélica. Em 1895 foram definidos cinco pontos fundamentais da fé cristã que estavam sendo questionados (ou pelo menos vistos de maneira menos rígida) pelos chamados “cristãos modernistas”: 1) Infalibilidade das Escrituras, 2) divindade de Cristo, 3) seu nascimento virginal, 4) seu sacrifício expiatório e 5) sua ressurreição física. Entre 1910 e 1915, com o financiamento de um milionário do ramo do petróleo, foram publicados três milhões de exemplares de uma coleção de livretos chamados “The fundamentals” (os fundamentos). O objetivo era apoiar a luta conservadora contra as posições liberais adotadas por algumas igrejas.

Mas o termo “fundamentalista” só surgiu em 1920, cunhado por um editor batista. Com o tempo o movimento foi ganhando mais adeptos e adotando ideias cada vez mais radicais.  Grupos anti-aborto cristãos norte-americanos, como o “Exército de Deus” e a ACLA, cometeram sequestros, ataques a clínicas de aborto e até homicídios sob o manto de um discurso “pró-vida” e “pró-família”. As duas guerras dos EUA contra o Iraque (1991/2003 – Bush pai e Bush filho) foram justificadas com discursos com nítido teor religioso. Observe que o fundamentalismo apoia seu discurso em textos religiosos como solução para algo visto como uma ameaça iminente à ordem e à paz (imigrantes negros, terrorismo, mudança nos costumes, etc,). Um judeu poderia justificar a guerra contra os palestinos citando o livro bíblico de Josué (Js 6,21). Um árabe muçulmano poderia citar o Corão justificando uma matança dos idólatras (Sura 9,5). Até mesmo um cristão poderia citar textos do Novo Testamento justificando a dissolução da família (Mt 10,35) ou a automutilação (Mt 5,29). Como se vê, tudo depende dos olhos e das intenções de quem lê.

Hoje, no Brasil, o fundamentalismo tem tomado conta do cenário político. O que é proibido pela religião – argumentam – deve ser proibido por lei. Com um discurso como esse o horizonte que se abre é tenebroso, muito tenebroso.


Jones F. Mendonça