quarta-feira, 29 de março de 2017

PROFETISMO E ÊXTASE

Em 1Sm 18,10, com inveja de Davi, Saul “profetiza”(?!) após ser tomado pelo “espírito mau de elohim”. Sim, trata-se de uma passagem estranha. Em 19,24, agora tomado pelo “espírito de Elohim”, Saul: 1. “Profetiza” nu diante de Samuel; 2. Seu corpo desfalece e permanece no chão por toda a noite. Mais estranho ainda, não? Bem, em algumas Bíblias a leitura é confusa porque neste caso o verbo “naba’” (geralmente traduzido por profetizar) parece indicar uma espécie de “êxtase” ou “delírio” e não a proclamação de uma mensagem divina (como geralmente ocorre, p.ex. Jr 25,13).

Em 1 Sm 18 e 19 “nabá” é usado para indicar um sinal, uma evidência concreta da presença do espírito divino num indivíduo (como em 10,6-7, cuja função é a mesma em At 10,44-45). Este tipo de delírio por vezes aparece acompanhado de música, como em 1Sm 10,5 e 2Rs 3,15. Naba’ também é “êxtase” em Nm 11,25, texto que narra o fenômeno denunciado por um jovem a Moisés, ocorrido com Eldad e Medad.  Moisés repreende o jovem com as seguintes palavras: “Oxalá todo o povo de Javé fosse profeta, dando-lhe Javé o seu Espírito!” (mesmo desejo expresso em Jl 2,28). 

Aos interessados na relação entre profetismo e êxtase no Antigo Israel, sugiro a leitura do artigo: “Prophecy and Ecstasy: A Reexamination”, por Robert R. Wilson, publicado no Journal of Biblical Literature (para visualizar o artigo será preciso fazer um cadastro).



Jones f. Mendonça