quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

JESUS, HUMANISTA ANTES DO HUMANISMO

Pouco antes de divulgar suas 95 teses contra as indulgências, em 31 de outubro de 1517, Lutero escreveu 97 teses contra a escolástica. Em sua tese 50 o reformador alemão chegou a dizer que “Aristóteles está para a teologia como as trevas estão para a luz’. Mas o fantasma do filósofo grego desprezado pelo reformador não iria deixar seus continuadores em paz.

Foi-se Lutero, foi-se Zwínglio, foi-se Calvino e algumas lacunas deixadas pelos reformadores logo passaram a ser alvo da investigação minuciosa da ortodoxia luterana e calvinista. A lógica de Aristóteles voltava à cena com trajes de gala e cabelo engomado.

No âmbito calvinista, por exemplo surgiram discussões tão proveitosas quanto a natureza sexual dos anjos. Os teólogos reformados não conseguiam dormir pensando em qual teria sido a ordem lógica dos decretos de Deus. Os supralapsarianos (supra = antes + lapso = queda) entendiam que o decreto da predestinação ocorrera antes da queda. Para os infralapsarianos (infra = abaixo, depois) o decreto da predestinação deve se situar depois da queda. Coisa muito útil.

Entre os luteranos a coisa descambou para outro lado. As conclusões de Galileu a favor do heliocentrismo, por exemplo, deixaram Valentin Ernst Löscher com uma baita dor de cabeça. Ele defendeu que o que se chama “escolástica luterana”, propondo uma reformulação da metafísica de Aristóteles. Löscher achava que as observações feitas por meio dos telescópios não eram confiáveis, afinal foram feitas pelos olhos de um pecador (!). Lessing deu boas risadas desse argumento. Houve ainda uma certa obsessão por confissões doutrinárias. Sobraram discussões a respeito da ceia, da união hipostática e da predestinação.  

Século XXI e de modo geral os protestantes continuam obcecados por doutrina. E pensar que mesmo o Jesus do kerigma, aquele anunciado por seus seguidores nas linhas dos evangelhos, não se mostrava preocupado com formulações teológicas sofisticadas e rígidas. Em uma de suas falas enfatizou que não se deve colocar a doutrina acima do homem: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Foi humanista antes do humanismo. Mataram-no.



Jones F. Mendonça