terça-feira, 5 de novembro de 2013

OS CRISTÃOS MELQUITAS DA SÍRIA

Os livros de história do cristianismo geralmente fazem referência a dois grandes cismas (separação, fenda) ocorridos no cristianismo: o Grande Cisma do Oriente (1054) e o Grande Cisma do Ocidente (1378-1417). O primeiro deu origem à igreja ortodoxa grega e o segundo teve caráter temporário, marcado pela existência simultânea de dois papas: um em Roma e outro em Avignon, na França (há quem fale em três!).

Mas o primeiro grande cisma ocorreu já nos primeiros séculos, em decorrência de divergências a respeito da formulação do dogma cristológico firmado em Calcedôdia (451) que declara a dupla natureza de Cristo (divina e humana).  Alguns grupos de cristãos, principalmente da Palestina, Síria e Egito, inclinados ao monofisismo (insistiam numa só natureza de Cristo após a encarnação), repudiaram a doutrina da “união hipostática” (unidade da pessoa de Cristo em duas naturezas) e formaram as chamadas igrejas “não-calcedonianas”: a igreja armênia, a igreja copta e a igreja sírio-jacobita. A controvérsia ganhou o nome de “cisma acaciano”, uma referência ao patriarca Acácio de Constantinopla, autor de um documento que visava solucionar a controvérsia monofisista. A ambigüidade do texto acabou expondo Acácio à excomunhão e contribuindo para acentuar as diferenças entre Roma e Constantinopla.

Por terem se mantido fiéis à doutrina adotada pelo imperador romano (apesar de situados geograficamente no Oriente), um grupo de cristãos sírios ganhou o apelido pejorativo de melquita (maliki, em árabe; melekh, no siríaco e no hebraico = rei).

É importante frisar que o cristianismo nunca experimentou plena unidade. Paulo em sua carta aos Coríntios já se mostrava incomodado com a existência de grupos com tendências diferentes:
...cada um de vós diz: eu sou de Paulo; ou, eu de Apolo; ou eu sou de Cefas; ou, eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? (1Co 1,12-13) 
Este registro feito por Paulo revela a tendência dos fiéis em seguirem os fundadores das comunidades das quais faziam parte. Comunidades cristãs estabelecidas no Oriente pelos demais discípulos desenvolveram patrimônio litúrgico e teológico próprios ao longo dos primeiros séculos, constituindo um enorme obstáculo para a unidade da Igreja.

Parte dos melquitas, separados de Roma em 1054 juntamente com os ortodoxos, reconciliou-se com o papado no ano de 1684. São chamados de uniatas: praticam o rito oriental, liderados por um patriarca, mas são filiados à igreja católica. Como minoria na Síria, os melquitas tendem a apoiar o governo de Bashar  al Assad, uma vez que o ditador garante a liberdade religiosa no país.



Jones F. Mendonça