terça-feira, 12 de novembro de 2013

O DRAMA DE TEÓFILO E O “FIDES QUAERENS INTELLECTUM”

Teófilo Eusébio. Quarenta e dois anos. Casado. Pai de dois filhos. Crise da meia idade e ele reflete sobre a religião herdada de seus pais. Sempre pensou que sua conversão ocorrera devido à aceitação de uma doutrina. Invertendo santo Anselmo pensava buscar "compreender para crer". Uma decisão baseada na razão, portanto. Começou a achar que estava enganado.

Tratou de pensar que o indivíduo que adere a uma religião faz isso sem conhecer suficientemente seus fundamentos. No caso do cristianismo, por exemplo, em primeiro lugar o sujeito declara seu desejo de participar do grupo de fé (não resiste ao apelo e “levanta a mão” no culto ou explicita seu desejo ao pastor). Tal decisão – pensa - não pode ser racional. Num segundo momento ele aprende os dogmas, os códigos morais, a linguagem religiosa, a liturgia... E então começam as dúvidas, as perguntas, as inquietações.

A decisão primária parte de uma crise existencial e não de um julgamento racional. A razão só é acionada depois. Trata-se de uma razão manca, é verdade, mas que se esforça para justificar sua crença aos ateus, aos agnósticos, aos deístas e membros de outras religiões e a si mesmo. No âmbito protestante tal tarefa cabe à apologética. Entre os católicos à teologia fundamental.

O Teófilo do Evangelho de Lucas (Lc 1,3), xará do nosso personagem, parecia buscar razões mais sólidas para a fé que acabara de aderir: fides quaerens intellectum (a fé em busca de entendimento), como gostava de dizer Agostinho, teólogo que se esforçou para apresentar o cristianismo nos termos da filosofia platônica. Na escolástica foi a vez de Tomás de Aquino, impulsionado pala lógica aristotélica. A filosofia dava seus trotes sob o pulso firme da teologia: Agostinho abraçado a Platão, Aquino empoleirado em Aristóteles.

No século XX a “fé que busca compreender” ganhou ares sofisticados e linguagem quase hermética. Alguns deles inspirados num novo princípio hermenêutico: o existencialismo de Heidegger. Assim foi com Bultmann e Tillich. Amparada na teoria da evolução de Darwin apareceu Teilhard de Chardin e sua cristologia cósmica. E outros, como Bonhoeffer (secularização), von Buren (neopositivismo), Moltmann (filosofia da esperança de E. Bloch), etc. As Escrituras lidas e interpretadas com as lentes das filosofias e cosmovisões do século XX. A velha apologia renovada com Botox e bisturi.

Teófilo Eusébio leu todos esses teólogos em busca de uma justificativa racional para sua fé. Não encontrou. Debruçou-se sobre os livros de Craig e Plantinga, atuais ícones da apologética cristã. Pura ilusão. Quer saber se tornou ateu? Não, não se tornou. Continua indo aos cultos onde dirige um pequeno coral. Participa dos sacramentos. Encanta-se com a arquitetura das igrejas góticas. Distribui de sopa aos sem teto. Não faz isso para herdar o céu o por medo do inferno. Mantém–se ligado à religião porque de alguma forma ela o atrai (sim, ele se vê como uma mariposa ao redor de uma lâmpada acesa). Gosta de religião como gosta de olhar a lua ou o dorso de uma mulher. Talvez seja ingênuo. Talvez seja um niilista como supôs Nietzsche. Talvez seja um neurótico como defendia Freud. Talvez a religião seja para ele uma espécie de ópio como dizia Marx.

Talvez...


 Jones F. Mendonça