domingo, 31 de maio de 2009

Tábua rasa?


Quem assistiu ao filme “Amadeus”, adaptação de uma peça de teatro de Peter Shaffer, conhece a frustração de Antônio Salieri diante da genialidade de Mozart. Salieri era um compositor ofuscado pela sombra desse prodígio austríaco. Ele se julgava injustiçado por Deus, pois na sua concepção Mozart era indigno daquele magnífico “dom divino” que ele desejava tanto para si. Há no filme um momento inesquecível que mostra o assombro de Salieri ao ter diante de seus olhos uma partitura de Mozart. A harmonia e o brilhantismo da obra eram tais que seus olhos não puderam conter as lágrimas. No filme, Salieri se tornou tão obcecado pelo talento de Mozart que acabou esquecido num manicômio.

As mentes mais inquietas podem ser levadas a fazer a seguinte pergunta após refletirem sobre a trama envolvendo essas duas personagens: O talento de Mozart era inato, ou foi adquirido pela experiência?

O modo de pensar de Salieri demonstra ser ele um inatista, ou seja, ele acreditava que as pessoas herdavam de berço um talento especial para determinadas tarefas. A arte de compor, por exemplo, estaria reservada a algumas poucas pessoas divinamente abençoadas. Mas seria isso verdade?

John Locke (1632-1704), pensador inglês, afirmava que o homem não tem nem idéias nem princípios inatos, mas sim que os extrai da vida, da experiência. Locke dizia que a nossa alma é como uma folha em branco, limpa de qualquer letra e sem idéia nenhuma. Locke não concordaria com Salieri. Ele diria que o que tornava Mozart tão genial eram suas experiências vividas. Ele era um empirista.

Na época, ao invés da expressão “folha em branco”, os empiristas utilizavam a expressão “tábua rasa”, pois os romanos utilizavam tábuas recobertas de cera, para escrever com um estilete, raspando depois a escrita e reutilizando a tábua para novos escritos. Assim era a “tabula rasa”. Desse fato nasceu o termo “fazer tábua rasa”, ou seja, raspar tudo, não deixar traço de nada.

A batalha entre inatistas e empiristas atravessa séculos, sendo discutida tanto por filósofos como por desconhecidos numa mesinha de bar. Quem nunca teve sua bochecha apertada por uma tia inatista e ouviu algo do tipo: “é inteligente como o pai”, ou ainda “é teimoso como o avô”. Por outro lado há aqueles que afirmam com uma convicção inabalável: “o homem é produto do meio”, dizendo com isso que a “tábua” é realmente “rasa” e que vai sendo escrita de acordo com as experiências do dia-a-dia.

Bem, minha idéia era escrever um texto com trinta e cinco linhas e essa seria a minha última, mas confesso que estou um tanto indeciso. Vêm em minha mente uma cena onde discutem inatistas e empiristas. Alguns inatistas levantam a voz dizendo uma de suas frases prediletas: “quem nasceu pra tostão não chega a mil réis!”. Os empiristas, já irritados, revidam dizendo que “quem com porcos anda, farelo come!”, dizendo com isso que é o ambiente que faz o cidadão. E eu, que estou mais pra desconhecido numa mesinha de bar que pra filósofo, fico nesse dilema.

Como dizia Horácio “Est modus in rebus”[1] (Em tudo deve haver um meio termo), digamos que a tábua pode até ser rasa, mas que algumas vezes ela parece ter sido muito mal raspada, ah parece! São dessas “tábuas mal raspadas” que nascem figuras como Pelé, Einstein, Shakespeare, Nietzsche e tantos outros gênios. E que isso sirva de consolo para Salieri...


[1] Horácio, Satirae 1.1.106