quarta-feira, 24 de novembro de 2010

AS ESCAVAÇÕES EM KHIRBAT EN-NAHAS E A EXISTÊNCIA DE UM REINO SALOMÔNICO NO SÉCULO X a.C.

Foto: Earth Observatory (NASA)
Escavações no sul da Jordânia reacendem discussão sobre a  existência de um reino salomônico no século X a.C. A notícia é do San Diego News Room (A tradução é do Numinosum):
La Jolla - A existência do rei Salomão tem sido um tema de debate e de intrigas para inúmeros caçadores de tesouros e investigadores. Um antropólogo da Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD) descobriu indícios de que o antigo reino [...] como descrito na Bíblia hebraica (Antigo Testamento) pode muito bem ter existido.
Thomas Levy, professor de antropologia da UCSD e estudos judaicos, foi pioneiro em três escavações [...] em uma área chamada Khirbat en-Nahas, localizado no sul da Jordânia, atraindo a atenção da NOVA/National Geographic Television, que enviou uma equipe à Jordânia no ano passado.  As descobertas de Levy serão apresentadas no documentário, “NOVA: Busca pelas Minas de Salomão”, que estréia nesta terça-feira, 23 novembro, às 8:00 em PBS.
É muito importante o que Levy diz no final da matéria:
“Nós não temos prova de que encontramos as minas de Salomão, mas o que temos é a prova de que havia reinos no século 10.” 
Arqueólogos da escola de Israel Finkelstein afirmam que no século 10 não havia sociedades capazes de criar um reino, por isso o trabalho de Levy tem chamado tanto a atenção. Vamos aguardar os resultados das escavações. 

Até a Nasa está participando do projeto, como você vê aqui.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

QUAL O ORIGEM DO NOME “JERUSALÉM”?

A Revista Letras, Vol. 36 (1987), da Universidade Federal do Paraná, publicou um interessante artigo sobre a origem do nome “Jerusalém”. De acordo com o autor, R. F. Mansur Guérios, o nome da capital de Judá surge da junção entre as palavras sumerianas URU (cidade) e SALÉM (ou SALIM – nome do planeta Vênus), dando origem à palavra YERUSHALEM.

O artigo completo (em PDF) pode ser lido aqui.

Fiz uma pesquisa rápida. De fato, em tábuas escavadas em Tell el Amarna, datadas de 1400 a.C., Jerusalém é chamada de Uru-Salém.
“to the time of the judges Jerusalem was known  as Urusalim [...] the element Uru being indicated by the Sumerian ideogram uru = city [1]”.
no tempo dos juizes Jerusalém era conhecida como Urusalim [...] (Uru sendo o elemento indicado pelo ideograma sumério uru = cidade).”
Nota:
[1] HOMMEL, Fritz; McClure, Edmund; Crossle, Leonard, The Ancient hebrew tradition as illustred by the old monumente, p. 199.

GEOGRAFIA BÍBLICA ON-LINE

Mapa da Palestina. Em destaque a cidade de Belém. 
O Bible Atlas é um site que permite inúmeras possibilidades de pesquisa na área de geografia bíblica. Darei um exemplo do que este site pode fazer por você citando algumas informações geográficas sobre o ministério de Jesus:
Jesus nasceu em Belém, fugiu para o Egito, viveu em Nazaré, curou em Cafarnaum e foi crucificado em Jerusalém.
Caso você clique nos nomes das cidades destacadas acima uma tela do Google vai abrir apontando a cidade escolhida num mapa. Experimente!

Para conseguir o link que direciona para a página do Google que contém a cidade, basta fazer o seguinte:

1) Entre no site Bibleatlas.org (este link vai te levar à página já traduzida para o português pelo Google);
2) Clique na letra inicial da cidade escolhida (por exemplo, “B”, para Belém);
3) Todas as cidades bíblicas iniciadas com a letra escolhida vão aparecer;
4) Ao clicar na imagem uma nova tela vai aparecer descrevendo características da cidade e um mapa colorido à esquerda (como na imagem acima).
5) Caso queira uma imagem do Google via satélite, basta clicar em “Google Map” na aba superior (abaixo das letras L,M,N, do alfabeto).

Ficou com alguma dúvida? Poste um comentário.

Você também consegue excelentes mapas no site da National Geographic.


sábado, 20 de novembro de 2010

DICIONÁRIO SEMÂNTICO DO HEBRAICO BÍBLICO ON-LINE

Se você precisa do significado de uma palavra hebraica, mas não possui um dicionário hebraico/português, basta visitar o site mantido pelas Sociedades Bíblicas Unidas. As consoantes hebraicas ficam na barra horizontal superior [1]. Caso você clique num alef, por exemplo, na barra horizontal da direita [2] aparecem todos os verbetes que iniciam com esta letra. Ao clicar no verbete, os significados da palavra (que aliás, aparecem de forma muito organizada), surgem no centro [3]. Infelizmente o número de palavras ainda é limitado. O site também pode ser visualizado em inglês, francês e espanhol. 

Para visitar o site, clique aqui

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

HUMOR CONTRA O RACISMO

No final do mês de outubro foi realizado o concurso internacional de cartoons contra o racismo, Brasil 2010. Os 45 catoons finalistas foram expostos no Montes Claros Shopping, MG. Você pode vê-los clicando aqui.

O cartoon vencedor (abaixo) foi feito pelo mexicano Angel Boligan, mostrando um Adão e uma Eva negros fugindo da ira divina após terem comigo do fruto proibido. E pensar que ambos foram "branqueados" ao longo dos séculos pelos pincéis dos artistas europeus.


Para acessar o site do Brazil Cartoon, clique aqui.

Se você gosta de cartoons não deixe de visitar a galeria do irancartoon. Você vai descobrir que os iranianos possuem um admirável talento para o desenho. 

O SANGUE DA INOCÊNCIA E O SANGUE DA CULPA

Imagem: Mihai Ignat/Romênia
 04 de novembro de 2010
Por Jones Mendonça

Um dos dogmas fundamentais da fé cristã é a de que Jesus, por amor, verteu o seu sangue pelos pecadores.  Nos três primeiros séculos, durante perseguições ocasionais aos cristãos, sob o aval de imperadores romanos como Nero e Domiciano, muitos seguidores do Cristo foram martirizados por causa de suas crenças religiosas.

Com a conversão do imperador Constantino, em 312, e mais tarde com o Edito de Teodósio, em 380, a situação se inverteu. O cristianismo se tornou a religião oficial do império. Lamentavelmente e ironicamente, desta vez seriam os cristãos os algozes, que em nome da fé, perseguiriam e matariam com requintes de crueldade todos aqueles que se opusessem aos seus dogmas religiosos. Por toda a Idade Média, muito sangue “pagão” foi derramado em nome de um homem que só pregava a paz, a justiça e a fraternidade. Com o surgimento do protestantismo a situação não mudou. Disputas religiosas violentas eclodiram na Alemanha, na França, na Escócia, nos Estados Unidos e em tantos outros lugares. Por um longo período a história do cristianismo foi escrita com sangue.

Essa é uma história que começa com o sangue da inocência, se desenvolve com o sangue da culpa e termina... bem, o fim da história só depende de nós. 

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

DAVI E SALOMÃO: REIS OU LÍDERES TRIBAIS?

A National Geographic de dezembro (edição em inglês) traz à tona a antiga polêmica a respeito da existência ou não de um império davídico. Os dois principais personagens dessa disputa são os arqueólogos israelenses Eilat Mazar e Israel Finkelstein. A primeira, neta do famoso arqueólogo Benjamim Mazar, defende a existência de uma cidade fortificada em Jerusalém no século X a.C., sede do governo de Davi. Mazar acredita que os relatos bíblicos são históricos e devem ser levados em conta na busca pela reconstrução do passado de Israel.

O segundo, professor de arqueologia de Israel na idade do bronze e do ferro na Universidade de Tell Aviv, sustenta que o que a Bíblia descreve como um império poderoso na época de Davi e Salomão na verdade não passou de uma aldeia ou centro tribal. Quando olha para as ruínas que Mazar supõe serem do antigo palácio de Davi,  Finkelstein dispara: “é claro que não o palácio de Davi”. Na sua opinião há sim um fundo de verdade nos relatos bíblicos, mas ele considera que as pessoas que escreveram o Antigo Testamento moldaram a história de acordo com suas convicções político-religiosas.

Para ler a matéria completa, já traduzida pelo Google, clique aqui.

Para ler mais sobre o assunto aqui no Numinosum, clique aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. 

terça-feira, 16 de novembro de 2010

QUAL O NOME DO SOGRO DE MOISÉS: REUEL, JETRO, JETER OU HOBAB?

Vejamos:

Ex 2,18,21 “elas voltaram a Reuel (hb. Reu’el), seu pai, [...] Então Moisés concordou em morar com aquele homem, o qual lhe deu sua filha Zípora.”

Ex 3,1  “Ora, Moisés estava apascentando o rebanho de Jetro (hb. Yitro), seu sogro, sacerdote de Midiã.”


Ex 4,18  “Então partiu Moisés, e voltando para Jeter (hb. yeter), seu sogro.”


Jz 4,11 “Ora, Heber, um queneu, se tinha apartado dos queneus, dos filhos de Hobab,(hb. Hobab), sogro de Moisés.”


Estranho, não?

A melhor explicação para o fato de um mesmo homem possuir tantos nomes é a hipótese que considera o Antigo Testamento como sendo o produto de diversas fontes diferentes (chamadas de javista, eloísta, sacerdotal e deuteronomista), que foram unidas ao longo da história de Israel.

É como se os alunos de uma escola resolvessem, individualmente, contar a história da turma com uma linguagem própria e mais tarde, por algum motivo, esses relatos fossem unidos num só documento. No texto final, um mesmo professor poderia ser chamado por seu primeiro nome (João), sobrenome (Castilho), apelido (Joca) ou função (professor). É possível que alguns os alunos até trocassem por descuido o nome de algum professor. 

Essa é uma comparação bem simplista, mas que ajuda o leitor a entender essa hipótese (que ficou conhecida como hipótese documental), levantada inicialmente por um pastor protestante chamado Henning Bernhard Witter (1683-1715). Mas para muitos estudiosos, o pai da hipótese documental foi Jean Astruc, médico de Luiz XV e biblista amador. Uma interessante tentativa de explicar como essas fontes foram unidas foi feita por Julius Wellhausen (1844-1918).

É claro que se admitirmos que o Antigo Testamento foi formado dessa maneira  a autoria mosaica terá que ser abandonada. Ele não teria um só autor, mas vários autores. É por essa e outras coisas que a tal hipótese documental tem dado o que falar. 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

FOTO NOTURNA DO DELTA DO NILO

Delta do Nilo numa visão noturna - NASA (clique para ampliar)
A Agência Espacial Americana (NASA) publica diariamente fotos da terra tiradas  da Estação Espacial Internacional. Esta imagem noturna do delta do Nilo, Egito, que você vê acima, foi publicada no dia 08 de novembro. Observe como o Cairo se destaca com sua intensa iluminação.

Observando a terra deste ângulo podemos  acompanhar o roteiro bíblico da caminhada de Moisés rumo à terra prometida. A terra de Gozem, local onde segundo a Bíblia se estabeleceram os descendentes de Abraão, fica à nordeste do Cairo (nr 01 na imagem). A famosa travessia do Mar Vermelho (na verdade Mar dos Juncos) ocorreu provavelmente no norte do Golfo de Suez (nr 02 na imagem). De acordo com a tradição, o monte Sinai (ou Horebe) fica entre os golfos de Suez e Aqaba, no deserto do Sinai (nr 03 na imagem). Para finalizar, a morte de Moisés se deu no Monte Nebo, na margem oriental do Jordão (nr 04 na imagem).

No Mediterrâneo você vê a ilha de Chipre (nr 05 na imagem), cidade natal de Barnabé (cf. At 4,36).

Quer ler mais sobre geografia bíblica aqui no Numinosum? Clique aqui.

Para visitar o site da NASA e ver outras imagens da terra fotografadas da Estação Espacial Internacional, clique aqui. 

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O PADRE ANTÔNIO VIEIRA E A ESCRAVIDÃO NO BRASIL

Por Jones Mendonça

O padre jesuíta Antônio Vieira destacou-se por seus belos sermões e pela forte oposição à escravidão indígena. Suas virtudes são inúmeras, não há como negar. Mas num de seus sermões há uma tentativa de justificar a escravidão dos negros fazendo uma comparação com os filhos de Corá. A comparação que ele faz é a seguinte: assim como os filhos de Corá foram poupados do juízo divino em decorrência da desobediência de seu pai (Nm 26,11), os negros também foram poupados do inferno ao serem trazidos para o Brasil.  Os pecados do seu povo seriam expiados aqui, por meio da escravidão. Em suma, é melhor padecer no Brasil e obter a salvação do que deleitar-se na África e ser lançado no inferno.

Leia este trecho de um sermão realizado na Bahia, à irmandade dos negros de um engenho em dia de São João Evangelista, em 1633:
“Vede se é grande milagre de Providência e Misericórdia divina [...]. Os filhos de Datã e Abirão pereceram com seus pais, porque seguiram com ele a mesma rebelião e cegueira. [...] Pelo contrário os filhos de Coré, perecendo ele, salvaram-se, porque reconheceram, veneraram e obedeceram a Deus: e esta é a singular felicidade do vosso estado, verdadeiramente milagroso” (VIEIRA, Antônio, 2001, pp. 648).
[...]
“Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado: Imitaturibus Christi crucifixi, porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa, em um engenho, é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo como cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. [...] Cristo despido, e vós despidos: Cristo sem comer, e vós famintos: Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio”  (VIEIRA, Antônio, 2001, pp. 651).
Se com os negros o padre Antonio Vieira não foi tão benevolente, com os índios não mediu esforços para impedir que fossem escravizados. Numa carta ao rei D. João IV, em 06 de abril de 1654, o padre defende com veemência o direito do índio à remuneração por seu trabalho:
“que os índios sejam pagos de seu trabalho, nenhum índio irá servir a morador algum, nem ainda nas obras públicas...” (HANSEN, João Adolfo (Org.), 2003, p. 449).
Como se vê, o padre Antônio Vieira não é nem santo e nem demônio. Tinha lá suas virtudes e defeitos como qualquer ser humano. De qualquer forma era alguém que estava à frente do seu tempo.

Referências bibliográficas:
VIEIRA, Antônio. Sermões (Tomo I). São Paulo: Hedra, 2001.
HANSEN, João Adolfo (Org.). Cartas do Brasil: 1626-1697, do padre Antônio Vieira. São Paulo: Hedra, 2003.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O RITUAL DA CIRCUNCISÃO EM NAÇÕES VIZINHAS DE ISRAEL

Por Jones Mendonça

Circuncisão no Egito
A circuncisão não era uma prática exclusiva dos israelitas. Como nos diz Werner H. Schmidt “suas origens perdem-se nas trevas da pré-história” (SCHMIDT, Werner H., 2004, p. 425). A prática da circuncisão ocorria no antigo Egito e entre os povos semíticos que viviam em Canaã. Os filisteus, por exemplo, não eram semitas, por isso eram chamados de “incircuncisos” (cf. 2 Sm 1,20). Os babilônios também foram chamados de incircuncisos (hb. ‘arel), em Is 52,1:
“Desperte! Desperte!, ó Sião, vista-se de força. Vista suas roupas de esplendor, ó Jerusalém, cidade santa. Os incircuncisos e os impuros não tornarão a entrar em você.”
Na imagem acima você vê um relevo da sexta dinastia de Saqqara representando sacerdotes realizando circuncisões em meninos egípcios (KING, Philip J; STARGER, Lawrence E., 2001, p.43).

Referências bibliográficas:
KING, Philip J; STARGER, Lawrence E. Life in biblical Israel. Westminster John Knox Press: Louisville, 2001.
VV. AA. Comentário bíblico. São Paulo: Loyola, 1999.
SCHMIDT, Werner H. A fé no Antigo Testamento. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2004.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

OS GAFANHOTOS DO PROFETA JOEL (PALAVRAS HEBRAICAS)

Por Jones Mendonça

Gafanhotos em Jerusalém, 1915
As palavras hebraicas em Joel 1,4 são as seguintes:

1) Gazam (traduzida como gafanhoto cortador). Essa palavra hebraica só aparece de novo em Am 4,9:
“Feri-vos com crestamento e ferrugem; a multidão das vossas hortas, e das vossas vinhas, e das vossas figueiras, e das vossas oliveiras, foi devorada pela locusta (gazam); contudo não vos convertestes a mim, diz o Senhor”.
 Da raiz “gazar” – cortar. O verbo aparece em 2 Rs 6,4 – “e, chegando eles ao Jordão, cortavam [do verbo gazar] madeira”.

2) 'arbeh (traduzido como gafanhoto migrador). Ocorre mais de vinte vezes na Bíblia. É um dos insetos que o livro de Levítico (Lv 11,22) permite comer.
“Deles, comereis estes: a locusta ('arbeh), segundo a sua espécie...”.
3) yekeq (traduzido por devorador). Menos de dez ocorrências, como em Jr 51,14.
“Jurou o SENHOR dos Exércitos por si mesmo, dizendo: Encher-te-ei certamente de homens, como de gafanhotos (yekeq), e eles cantarão sobre ti o eia! dos que pisam as uvas”.
 4) hasiyl (traduzido por destruidor). Larva de gafanhoto ou alguma praga que atingia a lavoura, cf. 1 Rs 8,37.
“Quando houver fome na terra ou peste, quando houver crestamento ou ferrugem, gafanhotos e larvas (hasiyl)...”.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O “SÃO JERÔNIMO ESCREVENDO”, DE MICHELANGELO MERISI DE CARAVAGGIO

Por Jones Mendonça

Clique para ampliar
Já expus aqui no Numinosum minha admiração pelo trabalho de Caravaggio. O jogo de sombras, as cores, a intensidade da cena, os movimentos, enfim, tudo numa tela deste admirável artista é fantástico.

A tela que você vê acima tem como título “São Jerônimo escrevendo” e foi pintada em 1606. Para quem não sabe, Jerônimo (340-420) foi um erudito padre (conhecia o hebraico, grego e latim) responsável pela famosa versão latina da Bíblia, conhecida como Vulgata Latina. A tela encontra-se exposta atualmente na Galleria Borghese, Roma. Segue um comentário de Pomella Andrea sobre esta belíssima obra:
“O típico contraste luminoso (claro-escuro) somado a madura busca psicológica e metafísica. A construção geométrica e espacial da obra está sustentada por dois contrapontos que são a cabeça do santo, por um lado, e a caveira, por outro, uma trágica alusão à caducidade das coisas”[1].
É ou não de tirar o fôlego!

Nota:
[1] Fiz uma tradução livre do espanhol. POMELLA, Andrea. Caravaggio. ATS Editrice Italia, p. 12.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O LIVRO DE CANTARES E SUAS METÁFORAS SEXUAIS

Por Jones Mendonça

O livro de Cantares é cheio de metáforas sexuais. Infelizmente já no primeiro século os judeus começaram a alegorizá-lo como sendo uma referência ao amor de Yahweh por Israel. No mesmo caminho seguiram os primeiros cristãos, que sem perder tempo deram a ele um caráter pedagógico. O livro seria uma referência ao amor de Cristo pela Igreja. Será?

As metáforas sexuais são inúmeras no livro, mas há uma que me chama atenção. Trata-se do texto de Ct 5,4:
O meu amado pôs a mão por uma abertura da tranca; meu coração começou a palpitar por causa dele” (NVI).
O meu amado meteu a mão por uma fresta, e o meu coração se comoveu por amor dele (JFA).
A NVI acrescenta a expressão “da tranca” ao texto original. Mas como você pode ver, no texto hebraico original ela não existe (veja a figura acima). Esta versão também substituiu um intestino gemendo, por um coração palpitando. Eu diria que ficou mais poético.

A JFA, por outro lado, não explica que fresta é esta. O texto parece ter menos sentido, apesar disso é mais fiel ao original.  A fim de adequar o versículo à nossa cultura, esta versão também substitui a palavra intestino (órgão ligado aos sentimentos na cultura semita) pela palavra coração. Na NVI o coração palpita, na JFA o coração se comove. Como sempre, a JFA é mais formal.

Permanece a dúvida, por que Sulamita ficou tão excitada (sim, excitada!) com o simples fato de o seu amado ter posto a mão numa fresta? E que fresta é esta?

Sei que corro o risco de ser chamado de “malicioso” ou de termos piores, mas a grande verdade é que a palavra yad, traduzida por “mão” no texto, também pode ser traduzida por “pênis”, como ocorre, por exemplo, em Is 57,8.10.

Bem, caso tenha sido esta a intenção do autor, o versículo teria um duplo sentido. Sulamita estaria ansiosa pela chegada do seu amado (que anuncia sua presença pondo a mão na abertura da porta) e excitada por seu toque.

Deixo para você, leitor, a decisão para esta inquietante questão!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

NOVO TEMPLATE

Depois de muita pesquisa decidi mudar o template (modelo visual) do meu Blog. Ganhei mais espaço lateral para as postagens e um visual mais agradável. O título do Blog, com letras antigas ao fundo, ainda é provisório.

Espero que você tenha gostado. 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

RABINO OVADIA YOSEF VOLTA A CAUSAR POLÊMICA EM ISRAEL

Ovadia Yosef, líder do partido religioso Shas, voltou a hostilizar estudantes árabes em Safed, no norte de Israel. Sua última declaração, comparando os não judeus a jumentos, desencadeou uma tempestade de controvérsias no Knesset (parlamento de Israel) e o lançamento de pedras no sábado passado em apartamentos de estudantes árabes em Safed.

De acordo com Yosef, a proibição da venda de terras a não judeus encontra base em uma interpretação feita pelo rabino Yosef Caro, autor do século 16 responsável pela da codificação da lei judaica, o Shulchan Aruch.

Em 2001 Yosef chegou a afirmar que é proibido ter piedade dos árabes e que Deus deveria exterminá-los (cf. Folha de São Paulo, em 10/04/2001). Em 2005 disse que o furacão Katrina foi uma punição divina como resposta ao apoio de Bush à retirada israelense da Faixa de Gaza

Leia mais aqui e aqui


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O APÓCRIFO DE II ENOQUE, OU ENOQUE ESLAVO (RESUMO)

 Por Jones Mendonça

Publiquei aqui no Numinosum um pequeno trecho o livro de I Enoque, que narra de maneira fantástica o nascimento de Noé e a queda dos anjos rebeldes.

Outro livro cujo autor utiliza o pseudônimo de Enoque é o Livro dos segredos de Enoque, também conhecido como II Enoque ou Enoque eslavo. Apesar de ter sido escrito em grego, só nos resta uma versão eslava. Este segundo livro relata a viagem de Enoque até o décimo céu, onde “está Deus, [que] na língua hebraica [...] é chamado Aravat” (II En 20,3). A viagem é iniciada após Enoque ser visitado por dois homens “extraordinariamente grandes”, cujas “faces resplandeciam como o sol” e cujos olhos “eram como chama” (II En 1,6). Após despedir-se de sua família, Enoque é inicialmente levado pelos homens ao primeiro céu em suas asas, que eram “mais brilhantes que o ouro” (II En 3). Cada um dos céus possui uma particularidade especial. Seguem abaixo as características principais de cada um deles:

  • 1° céu – Enoque vê os anjos que trabalham na ordenação das estrelas, nos depósitos de neve e na tesouraria do orvalho. O primeiro céu é uma espécie de “casa de máquinas” do mundo, cujos trabalhadores são os anjos (cap. 3-6).
  • 2° céu – Neste local ficam aprisionados os anjos infiéis a Deus, que são torturados e choram incessantemente. O príncipe desses anjos fica acorrentado no quinto céu (cap. 7).
  • 3° céu – No terceiro céu fica o paraíso. Nele há um jardim onde Deus descansa, guardado por trezentos anjos muito brilhantes (cap. 8). O terceiro céu é também para onde vão os “que fazem julgamentos justos, que levam pão aos famintos e que cobrem de vestes os nus” (cap. 9).  O norte deste lugar, escuro e tenebroso, é reservado “aos que desonram a Deus”. É para lá que vão os mentirosos, invejosos, opressores dos pobres e fornicadores (cap. 10).
  • 4° céu – No quarto céu Enoque contempla a órbita do sol (que é aceso por cem anjos), e da lua (cap. 11).  Enoque também vê “outros elementos voadores do céu”, que o acompanham na sua órbita, lhe dando calor e orvalho (cap. 12). Por fim ele fala dos seis “postais do sol”, por onde o grande astro passa ao longo do ano (cap. 13, 14 e 15).  O curso da lua, cheio de detalhes numéricos, é descrito nos capítulos 16 e 17.
  • 5° céu – Soldados gigantes e mudos chamados Grigori são vistos no quinto céu. Juntamente com seu príncipe, Satanail, rejeitaram o Senhor da Luz tomando por esposas as filhas dos homens (este curioso episódio é descrito nos capítulo 6 a 16 do Livro de I Enoque).
  • 6° céu – Neste céu ficam os anjos responsáveis pelas estações do ano, dos rios, dos mares e dos frutos da terra. Eles também são incumbidos de anotar todos os feitos dos homens diante do Senhor (cap. 19).
  • 7° céu – No sétimo céu há uma  grande quantidade de arcanjos, querubins, serafins e toda a sorte de ordens angelicais. É lá que fica o trono de Deus.
  • 8° céu – O oitavo céu é chamado de Muzaloth, o que muda as estações, a seca, a umidade e os doze signos do zodíaco, que estão acima do sétimo céu (cap. 21).
  • 9° céu – É chamado de Kuchavim, onde estão as casas celestes dos doze signos do zodíaco (cap. 21).
  • 10° céu – Chamado de Aravoth, é lá que a face do Senhor pode ser contemplada, descrita como sendo semelhante ao “ferro que arde no fogo e que, as sair, emite faíscas e queima” (cap. 22).
Nos demais capítulos (23 ao o 61), Deus conta a Enoque como criou o universo e lhe transmite uma série de ensinamentos. Enoque retransmite esses ensinamentos aos seus filhos. No último capítulo lemos o seguinte:
Ele [Enoque] anotou todos esses sinais de toda a criação, criada pelo Senhor, e escreveu trezentos e sessenta e seis livros, entregou-os a seus filhos e permaneceu na terra trinta dias, sendo novamente levado para o Céu no sexto dia do mês de Tsivan, no dia e na hora exata em que nascera (En 61,3).
A idéia da existência de dez céus estava profundamente enraizada na cultura judaica. Paulo, por exemplo, diz ter ido ao terceiro céu (2 Co 12,2).

Imagem:
Mignard, Pierre
A Glória Celestial
1663
Afresco
Val-de-Grâce, Paris